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domingo, 4 de janeiro de 2026

O Gruuthusemuseum em Bruges - Um palácio repleto de histórias

Esse esplêndido palácio renascentista abriga o Gruuthusemuseum. Ele é anexo à Igreja de Nossa Senhora, e foi construído no século XV, quando Bruges era uma metrópole, e foi nomeado em homenagem a seu residente mais ilustre: Louis de Gruuthuse, um nobre rico, conselheiro dos duques da Borgonha - os governantes de Bruges. 

Visitar museus que ficam em antigas residências é sempre incrível porque se pode imaginar com mais detalhes como era a vida das pessoas, seja dos nobres, seja dos trabalhadores. Aqui, além disso, foi possível saber um pouco mais sobre os cinco séculos da história da cidade.

Na primeira sala, uma lareira incrível! 


Durante o século XV, Bruges era um centro de arte e cultura. Havia dois motivos para isso: a prosperidade dos habitantes da cidade e o bom gosto de seus governantes. 

Originalmente, a base de poder dos duques estava em Dijon, mas sob Filipe, o Bom (1396-1467), o poder se deslocou para os Países Baixos. Filipe passava muito tempo em Bruges, onde fazia encomendas e comissões generosas. Igrejas, claustros, as autoridades da cidade, artesãos e indivíduos ricos: todos seguiam o exemplo do duque. Bruges atraía artistas em massa.

Mapa anônimo - Brugge, século XVI - 1546-1600. Óleo sobre tela


O estilo refinado em que trabalhavam era conhecido como estilo 'Gótico Internacional'. Surgiu na França, mas artistas do Norte adicionavam lhe um realismo de tirar o fôlego. 

Fragmento de um retábulo com representando o nascimento de Cristo, 1500, Antuérpia. Carvalho policromado. 

Mapa da região de Zwin - Jan de Hervy, 1501, Bruges, óleo sobre tela

https://www.researchgate.net/profile/Bart-Lambert/publication/309081298/figure/fig2/AS:421849222914049@1477588100224/Colour-online-Map-of-the-Zwin-area-by-Jan-de-Hervy-1501-Bruges-Groeninge-Museum.png

Comerciantes de todo o mundo chegam a Bruges trazendo os mais diversos produtos que coletaram em suas viagens. Do Mar do Norte, navegam até o Zwin, a ligação natural com a cidade. Ali surgiram várias pequenas vilas que funcionam como portos. Grandes navios eram descarregados em barcos menores que seguem para Bruges.

Tecidos eram exportados de Bruges desde o século XI, mas sempre por terra. Em 1277, mercadores genoveses chegam pela primeira vez de navio. Não demorou muito para que uma grande parte do comércio passasse a ser transportada por água. Bruges se tornou um ponto de encontro para mercadores, banqueiros e investidores de toda a Europa.

Os mercadores negociam principalmente artigos de luxo - de âmbar a marfim e de livros de horas iluminados a placas comemorativas de bronze. A cidade faz de tudo para facilitar as atividades dos mercadores: um cais de descarga coberto, um espaçoso Mercado de Tecidos e subsídios para a construção de casas de prestígio.

Para acomodar todas esses viajantes, se desenvolveram muitas estalagens, onde também armazenavam suas mercadorias. Os donos das estalagens atuavam como intermediários entre os comerciantes de Bruges e os mercadores. A família Van der Beurse faz isso com tanto sucesso que dá nome a um novo fenômeno: a 'beurs', que significa bolsa de valores em holandês.

Cartas confirmando os privilégios importantes pelo kontor (bureau) pela Liga Hanseática - uma poderosa aliança de comerciantes alemães à cidade de Bruges, 1501. 

Embora Bruges em si não fosse uma cidade hanseática, abrigava um importante escritório hanseático, assim como Londres, Bergen e Novgorod.

O escritório hanseático em Bruges confirma ter recebido da prefeitura um cofre com duas fechaduras, contendo documentos oficiais do Duque da Borgonha que garantem a passagem segura para a cidade de Gdansk. Uma chave ficará com o escritório hanseático e a outra com a cidade de Bruges.

Caixa de pesos destinada a controlar quatro moedas estrangeiras, 1325-1400, França (?). Madeira, cobre, bronze e cordas.  Bolsa, escavada atrás do Campanário, 1500-1600. Couro. 

Os comerciantes usam jetons - pagamentos extras, gratificações por comparecimento e participação em reuniões de conselhos, para ajudá-los a fazer cálculos rápidos. Eles os colocam em uma tábua de contagem dividida em caixas; o valor do jeton depende da caixa em que ele é colocado.

Qualquer pessoa que pudesse pagar mandava produzir jetons com seu próprio brasão e os dava de presente. Nesta fileira, por exemplo, há um jeton da família Gruuthuse.

Colard de Marcke foi um banqueiro influente na Bruges do século XIV. Seus registros meticulosos oferecem uma visão rara da vida financeira da Bruges medieval. Ele operava dentro de uma rede de mercadores, estalajadeiros e cidades como Ghent e Antuérpia. Seu trabalho destaca o papel de Bruges como centro financeiro e ilustra a ascensão do capitalismo inicial na Europa. Hoje, seus registros são fontes importantes para pesquisas econômicas e históricas.

Grootboek van de wisselaar Colard de Marke, Livro-razão geral do cambista. 1369, Bruges. Encadernação em papel e couro. 

Maquete do navio 'De Maagd van Gent' (A Virgem de Ghent), 1674, Madeira de tília, corda e metal

Esta pequena caixa contém pesos para pesar moedas. No passado, a quantidade de gramas de metal precioso que cada moeda deveria conter era especificada com precisão. Se uma moeda não pesasse o suficiente, poderia ser falsa. Os falsificadores usavam metais ou ligas inferiores, ou cortavam as bordas finas das moedas, o chamado 'corte'.

Arcanjo Miguel e o dragão - L'archange saint Michel et le dragon. 1557, Bruges. Carvalho. São Miguel é uma figura importante na fé católica belga.

Estes vitrais vêm de uma capela perdida na Noordzandstraat. Pertencia à guilda de artesãos de pintores, artistas de vitrais e seleiros, e era decorada com as peças mais belas. Os duques da Borgonha também gostavam de usar a capela, principalmente porque sua residência, o Prinsenhof, ficava nas proximidades.

Durante a Idade Média, a religião era fundamental. Para apoiar os fiéis em suas orações, igrejas, capelas e claustros eram repletos de estátuas de santos. Estas às vezes faziam parte de um grande retábulo ou mesa, muitos dos quais se perderam desde então.


No salão das esculturas, fotografei aquelas que representavam mulheres, em geral, santas católicas com vestimentas e penteados característicos da época renascentista. 



Escultura 'Mary Reading'

A riqueza das tapeçarias, esculturas e entalhes nos permitem vislumbrar a vida cotidiana dos nobres de Bruges






O oratório do Palácio Gruuthuse


A partir da sala acima, tem-se acesso a uma verdadeira jóia da arquitetura renascentista de Bruge, o oratório (capela particular) de Louis de Gruuthuse. De lá, ele e sua esposa podiam assistir a missa celebrada na Igreja de Nossa Senhora. A capela oferece uma vista direta do coro da igreja. O interior luxuosamente acabado do século XV é original.


A arquitetura era repleta de cores vibrantes. Vários vestígios disso ainda podem ser vistos nesta sala. 



O oratório, construído para Luís de Gruuthuse no século XV, foi cuidadosamente restaurado.

O oratório visto da igreja de Nossa Senhora de Brugge. O padre podia acessar a capela superior para administrar a comunhão por meio de uma escada.

A parte externa da capela é decorada com brasões e as iniciais de Luís e sua esposa, Margarida de Borssele, e seu lema 'Plus est en vous' ('Há mais em você'). 

Túmulo de Maria da Borgonha

Jan Borman e Renier van Thienen. Dourado e esmaltado por Pierre de Beckere. 1490-1502

Após cair do cavalo, Maria da Borgonha morreu em 27 de março de 1482 no Prinsenhof, o Palácio dos Duques, em Bruges. Ela tinha apenas 25 anos, mas governava os Países Baixos desde a morte de seu pai, Carlos, o Ousado, em 1477. Ela foi sepultada na Igreja de Nossa Senhora a seu pedido expresso.


Seu marido, Maximiliano da Áustria, encomendou este monumento funerário em 1490, em estilo gótico. Os painéis laterais apresentam sua árvore genealógica por parte de mãe e de pai. Seu epitáfio está esculpido nas extremidades superior e inferior, listando os territórios sobre os quais ela governou e apresentando seu brasão de armas.


Grandes mudanças

Os tempos se tornaram sombrios em Bruges no início do século XVII. As guerras religiosas entre católicos e protestantes atingiram duramente a região de Flandres. Para piorar a situação, o canal de Zwin, que dá acesso ao mar, se tornou difícil de navegar. Bruges deixou de ser uma movimentada metrópole comercial. 


Representação a família de Guillaume de Brouwer (1693 a 1767), comerciante e armador de Bruges, em seu escritório comercial. A identificação possível devido às iniciais "D.B." em um dos pacotes de cartas na escrivaninha, com a inscrição "Mynheer De Brouwer Kapiteyn tot Brugge". Autor anônimo.

No entanto, os habitantes não perdem a esperança. Uma nova ligação com o mar foi estabelecida: um canal para Ostende. Os mercadores de Bruges negociam com a Ásia e a América do Sul e introduziram novos produtos exóticos na cidade: café, chá, tabaco, porcelana.

Enquanto isso, um movimento de renovação surgiu no mundo católico: a Contrarreforma. Várias ordens monásticas se estabelecem em Bruges. Elas construíram edifícios impressionantes, que preenchem com obras de arte deslumbrantes. Os livros de encomendas dos artesãos ficaram cheios novamente. 

O Handelskom em Bruges ( Bacia do Canal em Bruges) Johannes Beerblock, 1804, Óleo sobre tela

Gargulas no edifício do Gruuthusemuseum

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