Fórum Romano

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domingo, 24 de julho de 2016

Visita ao Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires e a exposição Orozco, Rivera, e Siqueiros

O Museu de Belas Artes de Buenos Aires fazia parte do meu roteiro de viagem, dessa forma, visita-lo foi um grande prazer aos olhos e ao conhecimento. 
Sua localização, na Avenida del Libertador, é um pouco longe do centro, andar não é uma boa ideia,  é preciso ir de metrô ou taxi. É possível visitar o MALBA e o MNBA em um único dia, pois são próximos, além do mais, caminhar pelas muitas praças no entorno vale a vista e os momentos de contemplação. 

Muitas praças e jardins, caminhando desde o MALBA, pudemos visitar a Florais Genérica na Plaza de las Naciones Unidas, vislumbrar o imponente prédio da Facultad del Derecho e caminhar pela Plaza San Martín onde encontra-se o MNBA



A estrutura do espaço é muito boa, a entrada gratuita e se locomover pelas 24 salas do espaço é bastante fácil (sem escadas e demais acessos) e interessante. O acervo possui obras representando desde a Baixa Idade Média, renascentistas, barroco, neoclássico, impressionistas e demais movimentos do século XIX. 
Tapeçarias de Flandres, século XV. 
Ricardo e Ana Clara sentam-se enquanto perambulo loucamente pelas salas. 
Uma escultura em madeira de Vernero - Um anjo com a cabeça de São João Batista, 1845 - impressionante a expressão no rosto do anjo e da cabeça de João Batista em si
Uma pintura do século XVIII me chamou particularmente a atenção por lembrar-me minha querida ex-aluna Ana Luisa: Charlotte de Hesse- Rheinfels de Jean Marc Nattier
Retrato da Infanta Maria Tereza de España - Circulo de Velasquez - como a obra As meninas de Velasquez é uma das minhas preferidas, não pude permanecer imparcial diante dessa obra. 

Para mim, a sala de esculturas merece destaque sempre, a maneira como o artista consegue transformar um bloco de mármore em algo tão perfeito, cheio de sentimentos que não é difícil imaginar os movimentos... por isso a maior parte das fotos são das esculturas.  A iluminação torna tudo muito mais dramático. 

Barrias, O primeiro funeral, 1878: comovente e impressionante, essa obra mostra o momento em que Adão e Eva carregam seu filho morto Abel, Eva beija sua testa. 
Rodin, O Beijo, 1908 - já vi muitas dessa representação em vários museus, mas sempre me causam encantamento.
                                            
Impressionistas Italianos - século XIX
                                               
A mágica utilização da luz pelos impressionistas no século XIX: Gaugin, Marisot, Van Gogh, Monet

A Exposição Temporária de Orosco, Rivera, e Siqueiros 


A exposição temporária foi o ponto alto de minha visita, sem qualquer sombra de dúvida. Me considero privilegiada por poder tê-la visitado. A arte política é extremamente fascinante, a maneira como o artista representa sua opinião por meio das obras, os simbolismos, as cores me encantam. Essa exposição, em especial, pois foi incialmente projetada para ser exposta em 1973, em Santiago, no Chile, mas o golpe que derrubou Allende e implantou a ditadura naquele país fez com que ela não chegasse aos olhos do público, ao menos, não até 2016. 
Caso haja interesse, é possível ter acesso ao catálogo da exposição de 1973 aqui: http://www.mnba.cl/617/w3-article-56809.html a apresentação é feita por Pablo Neruda, mas vale a pena ser analisado com calma, é belíssimo.

Após uma temporada em Santiago, a exposição seguiu para Buenos Aires, onde teve acréscimos de pintores argentinos que foram fortemente influenciados pelos pintores mexicanos, com o complemento: La conexión Sur. Me vi encantada por obras de artistas como Antonio Berni - que para mim tem as obras mais representativas, Carlos Alonso, Lino Enea Spilimbergo, Demetrio Urruchúa e Juan Carlos Castagnino. 
As obras mexicanas englobam a primeira metade do século XX e seus respectivos movimentos artísticos, os três artistas tem como destaque o trabalho como muralistas. Os murais são um detalhe a parte, adoro os murais mexicanos: intensos, grandiosos, coloridos, teatrais cheios de simbolismos cujos protagonistas são homens do povo, o povo heróico mexicano. Magníficos! 
Os artistas argentinos compuseram maioria das obras mostram temáticas recorrentes à história da América Latina, principalmente em momentos de ditadura, repressão e censura nas décadas de 50, 60 e 70.  
 Em agosto de 1960, Siqueiros foi detido pela polícia na casa da família Carrillo Gil onde havia se refugiado. Devido ao seu posicionamento favorável aos movimentos de trabalhadores, opositores ao governo, foi acusado de "subversão social" e preso. Sua esposa, Angélica Arenal, começou uma campanha internacional para exigir sua soltura. Em 1962, o movimento argentino pela libertação de David Alfaro Siqueiros realizou uma homenagem em Buenos Aires. 
Os artistas latino americanos também juntaram suas vozes frente aos acontecimentos da década de 1960, desde o desembarque na Baia dos Porcos, a invasão da República Dominicana, o assassinato de Che Guevara, o Maio Francês de 1968, a matança de Tlateloco até os bombardeios do Vietnã, entre muitos outros. O alastramento dos processos ditatoriais na década de 1970 - por meio da Operação Condor-  impulsionou ações coletivas de denúncia, boicotes, fóruns de discussões, obrigando o aprofundamento das estratégias para representar em suas obras a censura e a repressão que viviam os países do continente. 




José Davi Alforo Siqueiros: primeira nota temática para o mural de Chapultepec - 1956- 1957


Vista do mural completo no castelo de Chapultepec - México


Maternidad - Diego Rivera, 1916

Retrato de Pancho Villa - Orozco, 1931


Antonio Berni, Grupo de Mujeres con paloma, 1951

Ao Pintor mexicano David Alfaro Siqueiros, na prisão (tentativa de tradução minha) 

Quando o pincel é machete, 
Quando a cor um disparo, 
Quando o desenho, a linha, 
é um chicote

Quando um mural é um grito, 
Quando é um punho cerrado, 
Quando pendurado na cadeia
De uns pés ou de algumas mãos

Quando ele é pintado chorando
Que as sanções levantadas
Quando em vez de joelhos 
Eles exaltam os ombros altos

Quando os ventos obscuros 
São travados com ventos fracos
Quando o pássaro mais negro
Se opõe ao pássaro branco

Quando um homem não se cala
Nem está de braços cruzados
Quando antes das multidões
As ondas de luzes do raio

Quando pinta o que parece 
E não o que sonhou
Quando é verdadeira a verdade
E enganoso o engano:

David, em seguida, ele chamou, 
David o preso, 
David Alfaro Siqueiros, 
sozinho, sem flecha nem arco
sozinho, sem pedra nem funda, 
sozinho entre muros 
Quatro paredes vazias. 
Quatro sombras, sem espaço.

Abram as portas, abram-nas!
Ah, o que é isso? Aonde vamos? 
É de noite e sem estrelas? 
Não é dia? O sol se apagou?
Estão os peitos imóveis? 
Estamos mortos por acaso?
Um homem na prisão e ninguém
Nem nada pode salva-lo?

Suspiro! Abri as portas, 
Que estamos vivos, que estamos
vivos, não sepultados, 
com seu nome na garganta, 
com sua vida entre os lábios
As portas! Em breve! E a luz 
se abra de novo em suas mãos. 

Rafael Albert - Buenos Aires, 1962


Juan Carlos Castagnino - Represión. Série Cordobazo, 1969 - Tinta e colagem sobre papel - 70x50

Carlos Alonso - Lección de anatomía n˚2, 1970

Antonio Berni, Tragedia del 3˚ mundo - técnica mista sobre papel

Antonio Berni - Los Conquistadores, 1974 - Técnica mista sobre papel

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Trabalhando com fontes históricas em sala de aula e a construção da Cápsula do tempo 2016

Trabalhar com fontes históricas sempre requer um trabalho criativo do professor: como fazer alunos tão jovens - entre 10 e 11 anos entenderem o que são e qual a importância das fontes históricas? 
A vivência da sala de aula me ensinou que é necessário transformar as informações em algo significativo para eles, os alunos. Começamos a entender o que é história pela história de vida deles. Solicito que tragam para a aula objetos que lhes são importantes, significativos e que foram guardados por suas famílias para lembrar momentos importantes que tiveram juntos. 

Bonecas, certidões, cadernos de anotações, roupas de bebê...




Analisamos a importância dos objetos trazidos, por que foram escolhidos, o que revelam sobre o passado de quem a utilizou, levantamos hipóteses e, finalmente, classificamos as fontes. O sapatinho é uma fonte material, enquanto a fotografia é uma fonte visual. O registro de nascimento, o livro que a mãe preparou com tanto carinho relatando os primeiros anos do filho, são fontes escritas. Dessa forma, trabalhando de maneira mais concreta, a garantia de aprendizado significativo é alcançada por todos. 

A próxima atividade refere-se novamente à preservação da memória, mas agora para o futuro: a escrita de uma carta para o eu do futuro e a confecção da cápsula do tempo. 

A Carta: 
Os alunos elaboraram um texto onde se apresentaram, dizendo quem eram seus amigos no 6˚ano, o que faz para se divertir, que aulas mais gosta, quais seus sonhos e expectativas para dali há 4 anos, como espera estar quando o 9˚ano chegar e, claro, deixaram uma menagem para eles mesmos no futuro. .

O envelope
Cada aluno recebeu um envelope tamanho ofício. Deveriam decora-lo, escrever seu nome completo na parte externa e selecionar 3 fontes históricas em sua vida presente para guardar e ter acesso somente no 9˚ano. É muito interessante analisar o que eles selecionam para colocar nos envelopes, desde cartas de suas famílias, brinquedos, adesivos, fotos até pêlo de seus animais de estimação! 

A cápsula desse ano será aberta apenas em 2019. 








Ano passado me encantei com a história do apartamento de Paris de Madame Florian, fechado por 70 anos e que havia se transformado em uma cápsula do tempo, nos levando novamente a Paris da Belle époque.
Nas férias de 2015 li sobre as uma escola que, ao realizar reformas, encontrou por baixo das lousas utilizadas no dia a dia pelos professores e alunos, verdadeiros tesouros sobre o ensino no início do século nos Estados Unidos.
Achei sensacional poder conhecer como os professores ensinavam seus alunos há mais de 100 anos!
Funcionários da escola Emerson, em de Oklahoma, EUA, ao realizarem a troca das lousas da escola da cidade, se depararam com um verdadeiro tesouro, por baixo das lousas que estavam em uso haviam outras, datando 1917!
São desenhos, aulas de história, como a que se refere aos peregrinos, literatura, tabuadas...










Roleta de tabuada




Para saber mais: http://www.ctvnews.ca/world/a-lesson-in-time-1917-chalkboards-found-in-oklahoma-school-1.2409767

http://www.dailymail.co.uk/news/article-3114286/Lessons-past-High-school-renovations-reveal-students-chalkboard-drawings-frozen-time-Thanksgiving-1917.html

http://www.nbcnews.com/nightly-news/chalkboards-lessons-1917-uncovered-oklahoma-school-n375866

domingo, 17 de julho de 2016

Visita ao Teatro Colón em Buenos Aires

Ao iniciar a pesquisa sobre um possível roteiro a Buenos Aires nas férias de julho, as referências ao Teatro Colón como destino obrigatório começaram a me encantar.
Com as passagens em mãos, ao traçar nosso roteiro, ficou estabelecido que nossa primeira visita seria ao Teatro, no sábado a tarde. 
Assim como acontece com Teatro Municipal de São Paulo, embora tenha nome de Teatro, o Colón é uma casa de ópera, construído aos moldes de grandes casas de ópera europeias no período da belle époque, em 1908. O estilo eclético fascina os observadores com sua opulência e grandiosidade. 
As similaridades com nosso processo histórico também são muitos semelhantes: um oligarquia rica e poderosa- no caso argentino devido à exportação de cereais e ao a atividade portuária da Bacia Platina - precisa remodelar sua capital aos moldes europeus, com largas avenidas, construções fabulosas e, claro, uma casa de ópera. 
O edifício que visitamos é uma remodelação do antigo, construído em 1850. A construção iniciada em 1890, levou 20 anos para ser concluída e é cheia de lendas e mistérios, que deixam a visita e o discurso da guia ainda mais interessante,  como a morte por um ataque súbito do primeiro arquiteto italiano, Francesco Tamburini, responsável pelo projeto, aos 44 anos. O segundo arquiteto, Víctor Meano, sócio de Tamborini e também italiano, foi assassinado pelo amante da esposa, pasme, aos 44 anos. Após todos essas "coincidências" nenhum outro profissional queria vir a Buenos Aires e terminar a obra, mas um belga Jules Durmal finalizou o projeto em 1904, adotando muitos elementos do estilo eclético francês.
A ópera inaugura, em 25 de maio de 1808 foi Aida de Verdi. A acústica era o diferencial e atraia companhias de ópera europeias, chegando a rivalizar com grandes teatros de Milão e Nova Iorque. Como visitamos Buenos Aires nas comemorações do Bicentenário da Independência, não foi possível  tirar fotos da fachada do edifício, que estava sendo preparado para uma  grande ópera a céu aberto que ocorreria em 09/07.

                           
                                    https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_Colón

A  visita guiada tem duração de 50 minutos, e são minutos muito bem gastos, a cada ambiente a admiração e a expressão: UAU! segue o tour da visita. Os materiais de primeira qualidade como os mármores de diversas tonalidades, todos vindos da Europa, assim como as esculturas e os magníficos vitrais são maravilhosos. 



Obras de arte em mármore italiano

Detalhes do atrio de entrada e da magnífica cúpula com vitral colorido. 

Os vitrais foram realizados pela Casa Gaudin, de Paris, em 1907 e trazem cenas da ópera Homero




Escada de acesso aos camarotes - destaque para as cabeças de leões que a adornam. A palavra para definir esse espaço não poderia ser outra: grandiosidade. 


      
   

No segundo andar fica o salão de recepções, ou Salão Dourado, onde a rica burguesa portenha fazia grandes recepções e acontecimentos sociais. O espaço é uma reprodução do Froyer do ópera de Paris, em dias específicos, essas salas são utilizadas para apresentações musicais de câmara, conferências e exposições. Para esses eventos não são cobrados ingressos. 

Pose para foto ao final da escada. 
Suntuoso teto e muitos detalhes

Lustres e colunas com estruturas neoclássicas e barrocas, adornadas com folhas de ouro

El secreto - escultura em mármore de carrara - Gustav Eberlein


Pescoços erguidos e Clara tenta captar detalhes

Objetos de decoração lindíssimos, todos franceses, os móveis desse espaço são a prova de fogo.

                                                Espelhos tão lindos, como resistir à selfie? 




A sala de espetáculo é impressionante, um aspecto que me chamou muito a atenção foi o fato de poder fotografar todo o ambiente, aqui em São Paulo o Teatro Municipal tem severas restrições sobre o que pode e o que não pode ser fotografado. 
A cúpula da sala tem 318 metros quadrados e a acústica proporcionada pela sala é considerada a quinta melhor do mundo. Característica do período também é o fato de que existem camarotes para ver e para serem vistos. Como assim? Oras, nem sempre o mais caro garantia a melhor vista do placo, mas sim o fato de que a plateia veria a pessoa que estava sentada ali, suas roupas e acessórios e invejaria sua riqueza. 
Na época da inauguração as entradas nos camarotes ficavam restritas à elite portenha enriquecida,  os italianos imigrantes e pobres, acostumados à cultura e apreciadores de óperas, apenas conseguiam comprar ingressos na parte superior do teatro, chamada paraíso, dali pouco podia-se ver, mas a acústica é tão fantástica que tinha-se a impressão de estar no paraíso. 

Com 28 metros de altura e 32 metros de diâmetro, tem capacidade para acomodar 2478 pessoas sentadas e mais 500 em pé, no chamado paraíso. 
O lustre da cúpula central tem 700 lâmpadas e pesa duas toneladas e meia. 

O fosso abaixo do palco comporta uma orquestra com até 120 músicos. 



A cortina do palco pesa em torno de 700 quilos e foi confeccionada em 1936. 
Panorâmica da sala de espetáculo feita pela Clara

Mais uma selfie no espelho do camarote, todo construído em pinho canadense para evitar qualquer tipo de umidade e auxiliar na acústica. A visão do palco é muito boa e achei sensacional a utilização dos espelhos para impedir a visão do camarote vizinho. 

No subsolo há uma exposição de figurinos, cenários e sapatos, infelizmente fechada durante nossa visita. 

Onde: Apesar de ocupar 3 das principais avenidas de Buenos Aires: Cerrito, Viamonte, Tucumán y Libertad, a entrada é feita pela antiga entrada de carruagens, na avenida Tucumán. 
Quando: As visitas guiadas ocorrem diariamente das 9 às 17:00, saem visitas guiadas a cada 15 minutos e todas são realizadas em espanhol. 
Quanto: $250,00 (duzentos e cinquenta pesos argentinos - julho de 2016 - R$ 55,00) - pode ser pago com cartões de crédito Visa e Mastercard
Comentário: Achei bem cara a entrada e visita guiada, levando em conta os valores das atrações históricas aqui no Brasil e o fato de que éramos 3 pagantes - estudantes brasileiros NÃO tem descontos - mas a visita foi linda, a guia muito atenciosa e as explicações ótimas.