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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Julgamento de Nuremberg, 2026


Baseado no livro The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, o filme Nuremberg (2025) acompanha os acontecimentos imedianamente posteriores a rendição da Alemanha, em que os países vencedores decidem pelo julgamento de 22 líderes nazistas


Essa nova versão cinematográfica narra a convocação do psiquiatra estadunidense Douglas Kelley (Rami Malek) e sua aproximação com o objetivo de avaliar Hermann Göring (Russell Crowe),  que ocupou posições centrais durante o governo nazista e, após a morte de Adolf Hitler, e era um dos mais importantes dirigentes ainda vivos, e tentar compreender quais os aspectos responsáveis pelas atrocidades nazistas. 


Por que Nuremberg?

A escolha da cidade tinha razões práticas. O Palácio da Justiça havia sobrevivido relativamente bem aos bombardeios, possuía instalações suficientes para um grande julgamento e, principalmente, uma prisão ficava ao lado do edifício, facilitando a custódia dos réus.


Mas havia também uma poderosa simbologia. Nuremberg tinha sido uma das cidades mais associadas às grandes manifestações do Partido Nazista. 

Um comício de Nuremberg com membros do Partido Nazista, na década de 1930. Foto / Getty Images.

Adolf Hitler (1889–1945), discursando para a multidão durante o Comício de Nuremberg, em setembro de 1935. (Imperial War Museums)

Além disso, foi também nessa cidade que, em 15 de setembro de 1935, durante o congresso anual do Partido Nazista, foram anunciadas as chamadas Leis de Nuremberg, que retiraram direitos dos judeus alemães, transformaram o antissemitismo em política de Estado e  transformaram princípios da ideologia racial nazista em normas jurídicas, ampliando a exclusão dos judeus da sociedade alemã.

Assim, embora o simbolismo não tenha sido a única nem necessariamente a principal razão da escolha da cidade, ele não pode ser ignorado: um dos lugares utilizados pelo nazismo para celebrar seu poder tornou-se cenário do julgamento de seus dirigentes.

A view of Nuremberg from the castle looking southeast in 1945.
Imagem aérea mostra o resultado dos bombardeios nos dias que antecederam a capitulação da Alemanha, em 1945. 

É comum utilizarmos a expressão “Julgamento de Nuremberg”, no singular. Ela geralmente se refere ao Tribunal Militar Internacional de 1945–1946. Entretanto, houve outros doze julgamentos posteriores conduzidos pelos Estados Unidos em Nuremberg, entre 1946 e 1949. Médicos, juristas, integrantes das SS, membros dos Einsatzgruppen, empresários, funcionários ministeriais e comandantes militares estiveram entre os acusados nesses processos posteriores. 

Hermann Göring: um dos personagens centrais do filme


Hermann Göring (Russell Crowe) não era um integrante do Partido Nazista. Ele havia sido um dos homens mais poderosos do Terceiro Reich, comandante da Luftwaffe, a força aérea alemã, e ocupava uma posição privilegiada na estrutura política criada por Hitler.

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8r0z2kvkemo
Hermann Göring durante o julgamento

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8r0z2kvkemo
Russell Crowe como Göring (Credit: Alamy)

Existem gravações originais de seu depoimento. Em uma delas, Göring é interrogado a respeito de uma ordem de 31 de julho de 1941, enviada a Reinhard Heydrich, relacionada à preparação de uma solução para a chamada “questão judaica” na Europa.

No julgamento, Göring tornou-se um dos réus mais observados. Inteligente, articulado e experiente na utilização da propaganda, procurava defender suas ações e preservar uma determinada imagem de si mesmo e do regime. Essa característica ajuda a compreender por que sua relação com Douglas Kelley ocupa tanto espaço no filme.

Göring foi considerado culpado em todas as acusações apresentadas contra ele e condenado à morte. Entretanto, não chegou a ser executado: na noite anterior ao enforcamento, suicidou-se utilizando uma cápsula de cianeto.

Quem era Douglas Kelley?


O tenente-coronel Douglas M. Kelley era psiquiatra do Exército dos Estados Unidos e recebeu a tarefa de avaliar os prisioneiros nazistas para verificar, entre outras questões, suas condições psicológicas e sua capacidade de enfrentar um julgamento. Kelley entrevistou Göring diversas vezes e aplicou testes psicológicos aos prisioneiros.


O aspecto talvez mais perturbador dessa história está justamente nas conclusões às quais Kelley começou a chegar. Ele não encontrou uma explicação simples que permitisse atribuir os crimes nazistas a uma espécie de patologia mental comum aos dirigentes.

A possibilidade que emergia era muito mais desconfortável: pessoas capazes de participar de sistemas políticos responsáveis por crimes extraordinários não precisavam ser necessariamente “loucas” ou radicalmente diferentes das demais pessoas. Os prisioneiros foram submetidos a entrevistas e testes psicológicos. Kelley utilizou, entre outros instrumentos, o teste de Rorschach. 


Assim como mostra o filme, outro psicólogo que trabalhou diretamente com os réus foi Gustave Gilbert. Kelley e Gilbert chegaram a interpretações diferentes sobre alguns dos resultados e sobre a personalidade dos acusados. Esse aspecto é importante porque nos lembra que um documento, inclusive um teste psicológico, não “fala sozinho”. Os resultados também dependem das categorias, perguntas e interpretações empregadas por aqueles que os analisam.

Uma inovação que hoje parece comum: a tradução simultânea


Em Nuremberg, pela primeira vez na história, os vencedores julgaram os dirigentes de uma nação derrotada em uma guerra

Observe os fones de ouvido utilizados no tribunal. Inglês, francês, russo e alemão eram línguas oficiais dos julgamentos. Realizar sucessivamente cada tradução tornaria um processo daquela dimensão praticamente inviável. Nuremberg tornou-se uma experiência decisiva para a consolidação da interpretação simultânea em grandes encontros internacionais.


O sistema instalado no tribunal possuía cinco canais: um transmitia a voz original do falante e os outros ofereciam as traduções em inglês, francês, russo e alemão. Os participantes podiam selecionar nos fones o idioma que desejavam ouvir.



Fotografias, documentos e filmes tornaram-se provas


Um dos aspectos mais importantes do julgamento foi a quantidade de documentação utilizada pela acusação. 

O promotor norte-americano Robert H. Jackson, interpretado no filme por Michael Shannon, procurou construir parte significativa da acusação utilizando documentos produzidos pelos próprios nazistas. Ordens, memorandos, correspondências, registros administrativos e outros documentos ajudaram a demonstrar como funcionava o Estado nazista. 

Mas ocorreu algo ainda mais impressionante e inédito até aquele momento: filmes também foram apresentados como provas. Quando os exércitos aliados chegaram aos primeiros campos, após o choque inicial, filmes e fotografias documentaram o horror e a barbarie e, em 29 de novembro de 1945, poucos dias depois do início do julgamento, foi exibido no tribunal o documentário Nazi Concentration Camps, produzido a partir dessas filmagens. 

As luzes da sala foram apagadas e juízes, promotores, jornalistas e os próprios réus assistiram às imagens dos campos e de suas vítimas. Pela primeira vez em um julgamento internacional dessa dimensão, imagens em movimento assumiam um papel importante na demonstração de crimes em massa.

Uma palavra que ainda não era uma acusação jurídica: genocídio 


O termo genocídio já existia quando o Tribunal de Nuremberg começou. Ele havia sido criado pelo jurista Raphael Lemkin, em 1944, para descrever a destruição deliberada de grupos humanos.

A palavra apareceu nos processos de Nuremberg, mas ainda não constituía uma categoria jurídica independente entre as acusações apresentadas pelo Tribunal Militar Internacional. Os réus foram julgados por crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, além da acusação de conspiração. Somente em 1948 a Organização das Nações Unidas aprovaria a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio.


Nuremberg  e o direito internacional


Antes do Julgamento de Nuremberg já existiam tratados, convenções e normas internacionais. Além disso, o próprio Tribunal foi objeto de debates jurídicos e políticos. Entretanto, Nuremberg representou uma mudança importante ao afirmar que determinados atos poderiam gerar responsabilidade criminal individual no âmbito internacional, mesmo quando praticados por dirigentes estatais. Por isso, sua importância ultrapassa o julgamento dos dirigentes nazistas. Os princípios discutidos naquele tribunal participariam da formação de uma tradição jurídica que, com transformações, disputas e novos tratados, chegaria aos tribunais internacionais criados posteriormente.

Para saber mais:


O psiquiatra que determinou que nazistas 'não eram loucos' e podiam ser julgados: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8r0z2kvkemo


'This history mustn't be forgotten': The real story behind the Nuremberg trials: https://www.bbc.com/culture/article/20251023-a-forgotten-chapter-in-the-history-of-the-nuremberg-trials

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