Aqui só tem História

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

🎬 Vale a pena assistir - A Grande Fuga



Em 5 de junho de 2014, o veterano da Marinha Real inglesa na Segunda Guerra Mundial, Bernard Jordan (Michael Caine), de 89 anos, viveu uma incrível aventura: escapou da casa de repouso para participar das comemoração aos 70 anos do Dia D, na Normandia. 
Escapou porque, como perdeu o prazo para ir "oficialmente", Bernie e sua esposa Irene decidiram que ele iria por conta própria, sem avisar os funcionários da casa de repouso que poderiam tentar impedi-lo. Vestiu seu casaco, colocou suas medalhas e condecorações e partiu para pegar o ferry e atravessar o Canal da Mancha rumo à França.  

Quando a equipe de funcionários deu da sua ausência, ele já estava longe... Polícia, bombeiros e a mídia começam a procurar Bernie, apelidado de  “grande fugitivo”. 
No ferry, encontra-se com outros veteranos e conhece um ex-piloto da RAF (Royal Air Force). Juntos, eles relembraram o passado, o desembarque e seus companheiros abatidos no dia 06 de junho de 1944. 


Omaha Beach horas depois do início do desembarque aliado
Le Musée Mémorial de la Bataille de Normandie

Em um dos momentos mais emocionantes, no cemitério britânico, Bernie teve um lampejo de raiva diante dos milhões de quantidade de túmulos, diante do imenso desperdício de vidas daqueles que lutaram por seus países. “Meus pensamentos estavam com meus companheiros que foram mortos. Eu fui prestar meus respeito”, disse Jordan na volta para a Inglaterra. 


156.000 soldados aliados invadiram as praias da Normandia naquele dia. Estima-se que 2.500 a 4.000 morreram lá. Outros 9.000 defensores alemães também morreram nos desembarques.
Para mim, esse foi um dos momentos mais emocionantes, me identifiquei diante daquele desabafo. Eu senti exatamente isso ao visitar o cemitério estadunidense. Não consegui visitar os outros, fiquei muito abalada com todas aquelas milhares de vidas perdidas. 


A cruz exposta no Memorial de Caen ☝️ foi uma das milhares de cruzes provisórias utilizadas no cemitério militar anglo-canadenses em May-sur-Orne, 1944. O nome e o número do registro dos soldados eram registrados no ponto mais baixo. 

Le Musée Mémorial de la Bataille de Normandie


No Dia-D propriamente dito, as tropas Aliadas sofreram mais de 10.000 perdas: as forças britânicas e canadenses perderam 3.700 pessoas; os EUA tiveram uma perda de 6.600 homens. Os alemães perderam entre 4.000 a 9.000 soldados.



Bernard Jordan acena feliz aos jornalistas na sua volta para a Inglaterra após sua grande aventura. 

Bernie e Irene se casaram em 1946 e permaneceram juntos até a morte, em  2015.
A história de Bernie e Irene me lembrou algumas histórias que conheci quando visitei as praias da Normandia, em 2023 e me tocaram, como as do Sargento Walter Geldon, em Pont du Hoc, em Omaha. 


Sargento Walter Geldon, Companhia C, 2º Batalhão de Rangers, 6 de junho de 1944 foi o terceiro aniversário de seu casamento. Ele e seus companheiros Rangers cantaram canções para comemorar a ocasião pouco antes de desembarcar em Omaha. O antes trabalhador siderúrgico de 23 anos, da Pensilvânia, foi abatido por fogo inimigo poucos minutos depois de desembarcar. Quando sua viúva morreu em 2002, aos 78 anos, ela foi enterrada ao seu lado no cemitério americano, na Normandia.

No Airborne Museum, em Saint-Mère-Église, conheci, pelo telefone, a história de Jack N. Womer e seu amor, Theresa. 


A narração da carta relata as dificuldades, o medo, a saudade e a vontade de se casar com ela assim que a guerra acabasse. 
Exposto ao lado, um álbum de memórias, com comentários do paraquedista. 

Álbum de memórias de Jack N. Womer, com recordações dos anos entre 1942-1945


Dog Tag de Jack N. Womer e fotografia de sua futura esposa, Theresa

Homenagens aos veteranos na Catedral Notre Dame de Bayeaux pelos 70 anos do Desembarque, em 1944. 


As cidades da Normandia são repletas de bandeirolas aliadas pelas ruas, uma lembrança da gratidão do povo francês pela libertação. 


2024: 80 anos do desembarque na Normandia


🎬  Onde assistir


📚 Vale a pena ler

A World A World War II Veteran Escaped from a Nursing home for the 70th aniversary of D-Day: https://www.military.com/history/world-war-ii-veteran-escaped-nursing-home-70th-anniversary-of-d-day.html

domingo, 27 de outubro de 2024

Animal War Memorial, Londres


    No centro da cidade de Londres, em Brook Gate, at the Park Lane, fica um memorial muito tocante, o Animal War Memorial. Ele homenageia todos os animais mortos em conflitos ao longo do século XX. 
    O Memorial foi inaugurado em 2004 como parte das comemorações dos 90 anos do início da I Guerra Mundial, em 1914. 

Cavalos e mulas



    Oito milhões de cavalos e mulas foram mortos ao longo da Primeira Guerra Mundial. Eles foram usados para transportar munições e suprimentos para a frente de batalha e muitos morreram, não apenas pelo fogo cerrado de projéteis, mas também de exaustão, doenças e em condições climáticas terríveis. 


    Cavalos de montaria eram usados ​​pela cavalaria, já os de tração deixaram de puxar bondes para transportar armas de artilharia pesada ou carroças de abastecimento. 


O exército utilizou a resistência física das mulas em terrenos difíceis e em climas extremos. Esses animais serviram corajosamente na lama gelada na Frente Ocidental e no calor opressivo da Birmânia, da Eritreia e da Tunísia. Já os pôneis, por serem pequenos e resistentes, foram utilizados para transporte de armamentos


    Há muitas histórias inspiradoras e, muitas vezes, trágicas da grande lealdade entre cavalos, mulas e os soldados durante as batalhas mais sangrentos do século XX. 


O Beijo do Soldado (Henrique Chappell) 

Apenas um cavalo moribundo! 
Tire a engrenagem, 
E deslize o pedaço desnecessário das mandíbulas espumantes, 
Arraste-o para lá, deixe a estrada livre
A bateria troveja sem pausa.

Prostrado pela estrada devastada pelas bombas, lá está ele 
Com membros trêmulos, tão rápido quanto a maré da vida passa, 
Películas escuras estão se fechando sobre os olhos fiéis 
Que silenciosamente imploram por ajuda, não há nenhuma.

A bateria avança, mas lá vai alguém em alta velocidade, 
Sem se importar com a voz do companheiro ou com a explosão do projétil, 
De volta ao amigo ferido que sangra sozinho 
Ao lado da estrada pedregosa onde caiu.

Apenas um cavalo moribundo! 
Ele se ajoelha rapidamente, 
Levanta a cabeça flácida e ouve o suspiro trêmulo 
Beija seu amigo, 
Enquanto rola 
Doce lágrima de piedade; 
'Adeus, Velho, Adeus.'

Nenhuma honra o aguarda, 
Medalha, Distintivo ou Estrela, 
Embora dificilmente uma guerra pudesse revelar um ato mais gentil; 
Ele carrega em seu peito, muito mais precioso 
Além do presente dos reis, um coração de ouro.



    Do outro lado do muro que cerca o memorial, em um gramado cheio de luz, estão essas duas representações de um cavalo e um cachorro correndo livres de suas cruéis obrigações em tempo de guerra. Gosto de pensar em todos aqueles que voltaram para à Inglaterra. 

Cães


    Os cães foram usados ​​por todos os exércitos envolvidos na Primeira Guerra Mundial. Os britânicos e, em geral, todos os outros exércitos, recrutaram, treinaram e mobilizaram os seus cães.
    Os franceses usaram cães pequenos como caçadores de ratos nas trincheiras. Os ratos eram mais um dos enormes problemas que envolviam a vida nas trincheiras, dessa forma, os cães matadores de ratos provaram ser inestimáveis ​​para a vida no front.


    Os cães de grande porte foram utilizados como sentinelas. Seus sentidos aguçados lhes permitiram detectar movimentos inimigos a distâncias e alertar a trincheira sobre o ataque que viria. 

Soldados belgas e seus cães, os quais puxam metralhadoras para os campos de batalha

https://www.theworldwar.org/learn/about-wwi/dogs-wwi
Cartão que acompanhou um cão em sua jornada, da Inglaterra até o campo de batalha

Pombos correio

Um conflito de tamanhas proporções como a Grande Guerra precisava contar com um eficiente sistema de comunicação. As novidades do início do século como o telefone e o telégrafo, podiam ter os fios cortados e interromper a comunicação. Os pombos-correios foram a solução.
Os aviões sobrevoavam as trincheiras inimigas, elaboravam breves relatórios e atavam aos pombos que, ao procurar por seus pombais de origem, levavam mensagens de uma trincheira a outra e até para o outro lado do Canal da Mancha.


Mais de 100.000 pombos serviram à Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial e 200.000 na Segunda Guerra Mundial. Eles se apresentaram heroicamente e salvaram milhares de vidas carregando mensagens vitais, às vezes por longas distâncias, quando outros métodos de comunicação eram impossíveis. Voando a uma taxa de uma milha por minuto da linha de frente, de trás das linhas inimigas, de navios ou aviões, em todos os climas. 
Essas aves tão inteligentes evitaram a morte de muitos homens.

Outros tantos animais... 


Camelos utilizados para carregar feridos

Elefantes, camelos, bois, gatos, canários, todas essas criaturas, grandes e pequenas, contribuíram com sua força, sua energia e suas vidas em tempos de guerra e conflito para as forças britânicas, da Commonwealth e aliadas durante o século XX.

📚 Vale a pena ler: 

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Museu Afro-Brasil Emanoel Araújo em São Paulo

O Museu Afro-Brasil, no Ibirapuera, em São Paulo, apresenta a população afro-brasileira a partir da ótica da igualdade e do pertencimento


Ali, por meio da valorização da diversidade étnica dos povos africanos do passado e de suas estratégias de resistência à escravidão, as obras expostas demonstram como os afro-brasileiros se tornaram formadores fundamentais da nossa população e cultura.


Povos africanos e obras representados no Museu-Afro Brasil



África: diversidade e permanências


Representações dos poderosos reinos africanos e a enorme diversidade étnica na África e na América ao longo de centenas de são os principais assuntos abordados por esse espaço expositivo.

Esculturas, Kifouli Doussou (1978), Benim




Bastões de Moçambique, madeira e fita, sem data. Reprodução da obra de Johann Moritz Rugendas, Festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, 1835. 


História e Memória

Por séculos, foi negado aos afro-brasileiros o direito à memória e ao passado, inclusive embranquecendo negros e mulatos por seus feitos. Resgatar a identidade, relevância e história de figuras negras é o principal objetivo dessa exposição.

Raphael Galvez A morte do Zumbi (1940)


Madalena Schwartz Retratos - de cima para baixo: 
- Solano Trindade: poeta pernambucano, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta, 1969. 
- Abdias Nascimento: ator, diretor, dramaturgo, ativista social e fundador do teatro experimental negro, 1951. 
- Octávio Araújo: pintor paulista, gravador, desenhista e ilustrador, 1975
- Pelé: jogador de futebol, 1982. 


Madalena Schwartz Retratos - de cima para baixo:
- Clementina de Jesus: sambista carioca, 1978. 
- Aizita Nascimento: atriz e modelo carioca, 1975. 
- Marina Montoni: atriz e modelo carioca. 
- Ruth de Souza: atriz carioca, 1983. 



Soldados afro-brasileiros em diversos conflitos ao longo da história do país



Busto do soldado, sem data

Montagem - capa da Revista Ilustrada comemorativa à abolição da escravidão, maio de 1888. Fotografia da Princesa Isabel, governante regente do Brasil, luvas que pertenceram à princesa e escultura que a representa em madeira. 


Jornalista abolicionista José do Patrocínio - documentos de alforria e testamento, 1879


"Bom Jesus Conselheiro, o mais famoso chefe carismático do Brasil, surge sempre vestido num surrado camisolão azul, barbas e cabelos compridos, magríssimo, alimentando-se muito pouco, o 'Santo Conselheiro' gostava, todavia, de pregar aos sertanejos nordestinos, indicando-lhes, nos conselhos que dava, o caminho da saIvação, combatendo o regime republicano, apontado como criação do demônio..."

José Calasans (Museu Afro) 


Trabalho e escravidão

O trabalhador africano foi essencial em todos os ciclos econômicos da colônia - nos espaços urbanos ou rurais e, posteriormente, da nação, gerando riquezas e contribuindo com a qualificação em trabalhos especializados.
Na maior parte dos 500 anos da presença desses grupos na América portuguesa, no Império e República, esses trabalhadores foram alvo de violência, preconceito e crueldade.




Punição com palmatória, 1860-1865. 

Ama de leite com criança, século XIX

Mãe Preta, obra em bronze. Júlio Guerra


Pães de Açúcar, forma utilizada para cristalizar o melaço.  


Diversas formas de trabalho realizado pelos africanos ao longo do período colonial


Nesse espaço existem diversas ferramentas utilizadas pelos afro-brasileiros para realizar os mais diversos tipos de trabalho especializado na colônia. 

Porta de oficina de ferreiro





Barbeiros ambulantes (título da obra do artista francês Jean Baptiste Debret - reproduzida acima) eram escravizados de ganho que circulavam pelas cidades, principalmente pela capital Rio de Janeiro, e ofereciam seus serviços de cabelereiro, barbeiro e sangrador - colocavam sanguessugas atrás dos ouvidos, dos olhos ou no peito das pessoas para tirar o sangue "ruim" e curar o doente. 

Réplica de navio negreiro ou tumbeiro - transporte dos escravizados

Montagem utilizando a obra de Rugendas, Navio Negreiro



O Sagrado e o Profano


O cristianismo foi imposto aos africanos escravizados e tornou-se, ao longo dos séculos, espaço de sincretismo e preservação da cultura africana.
Sagrado é ligado ao divino e seus símbolos e desperta o respeito daqueles que acreditam nesse simbolismo. Já o profano é oposto. 
Nos trezentos anos em que o território que hoje é o Brasil foi colônia de Portugal, as obras de arte eram exclusivamente religiosas e os artistas aprendiam seus ofícios em corporações de ofício com mestres artesãos. Como, em geral, a sociedade colonial via o trabalho manual como um trabalho inferior, escultores, douradores, pintores, talhadores, carpinteiros, eram africanos ou mestiços, como Aleijadinho, grande artista mineiro do barroco. 





Artes Plásticas: a Mão Afro-Brasileira








🎬  Conhecendo Museus - MUSEU AFRO - BRASIL



Referências

Núcleo de educação do Museu AfroBrasil. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007.