Na primavera 1914, as tropas alemãs conseguiram avançar em meio a combates sangrentos até a região de Flandres. A retirada dos alemães na região do Marne, na França, entre outubro e novembro de 1914, fez o front se estender até o Mar do Norte.
De outubro a novembro de 1914, ocorreu a chamada Primeira Batalha de Ypres. Um ataque alemão particularmente custoso aconteceu em 10 de novembro, perto da vila de Langemark e pôs fim à guerra de movimentos, inaugurando a guerra de posições.
O Oberste Heeresleitung (OHL, Comando Supremo do Exército) tentou atacar os britânicos, que estavam em vantagem no terreno, com unidades formadas por reservistas, entre eles estudantes voluntários no dia 10 de novembro de 1914. O resultado foi devastador: 10.000 soldados alemães foram feridos ou mortos em uma batalha que não trouxe qualquer avanço.
Para encobrir o desastre, o OHL publicou um famoso comunicado oficial em 11 de novembro de 1914, que anunciava de forma enganosa que: “Para oeste, jovens regimentos de Langemarck avançaram ao som da canção 'Deutschland, Deutschland über alles', avançando contra a primeira linha do inimigo e conquistando-a.”
Em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial, havia cemitérios militares alemães em 678 municípios belgas; os maiores na área de Langemark. A pedido do governo belga, esse número foi significativamente reduzido. Em 1919/20, o Serviço de Sepulturas da Bélgica transferiu os restos de soldados alemães para Langemark e fechou os demais cemitérios.
O espaço, como se conhece hoje, foi oficialmente inaugurado em 10 de julho de 1932 e, entre 1956 e 1958, soldados alemães mortos em combate foram transferidos dos 128 cemitérios restantes na Flandres para esse cemitério.
A linha de trincheiras alemãs passava onde hoje está o cemitério - e seguia por cerca de 8 km. Aqui, em 1915, o gás cloro foi liberado pela primeira vez contra os britânicos.
Hoje, além dos estudantes ingleses, franceses e alemães, muitas crianças belgas frequentam o cemitério, deixam papoulas - símbolo do sacrifício na I Guerra Mundial e desenhos, como os que estão nos detalhes das fotos a seguir.
Mito de Langemark: um fiasco militar transformado em uma vitória moral.
O relatório enganoso do OHL foi publicado por inúmeros jornais em toda Alemanha. Essa habilidosa manipulação da opinião pública garantiu o surgimento de um mito sobre a batalha. As perdas de Langemarck passaram a simbolizar o heroísmo dos jovens soldados, o patriotismo e o espírito de sacrifício dos alemães, acentuados nos relatos cada vez mais embelezados de como as tropas alemãs teriam atacado metralhadoras britânicas sem cobertura.
A afirmação de que os regimentos cantaram o "Deutschlandlied" durante o ataque ganhou destaque. A canção representava a unidade da nação em uma luta pela vida e pela morte. Como mártires, enfatizava o mito de Langemarck, os soldados atacaram o inimigo destemidamente, sem se importarem com as próprias vidas.
Após a derrota alemã em 1918, o mito foi usado como por conservadores burgueses e nacionalistas extremos do período entreguerras, como os nazistas.
As celebrações anuais e a inauguração de um cemitério em 1932, homenageavam os heróis - meninos que sacrificaram a vida pela nação e, em troca, conquistaram a imortalidade na consciência coletiva do país.
A partir da ascensão do Nazismo, em 1933, o mito foi utilizado como propaganda militar pelo regime.
A Universidade de Berlim homenageava anualmente, em 11 de novembro, os estudantes que morreram na batalha de Langemarck, uma cerimônia que também servia para dar as boas-vindas aos novos alunos.
Hoje, existem 33 ruas ou praças que ainda têm o nome de “Langemarck” nas cidades alemãs, principalmente nas partes ocidentais do país.
Cenotáfio da Papoula em Langemark - Poppy Cenotaph memorial Langemark
Em 2016, 150 ferreiros se uniram para construir essa coluna memorial de aço, com 11,5 toneladas, circundada por 26 painéis que representam diferentes temas da Grande Guerra, como os "gueules cassées", trabalhadores chineses que limpavam os campos de batalha e o uso de novos armamentos: os gases tóxicos e venenoso e do tanque.
A Primeira Guerra Mundial levou a horrores inimagináveis, um exemplo das ambições e quão cruéis são os resultados para todos os envolvidos, não apenas de milhões de combatentes e civis, mas também das florestas, campos, rios e tudo o mais na paisagem, com as trincheiras e a terra de ninguém que são o tema deste painel, ilustradas pelas ferramentas de escavação presas no arame farpado onipresente e paralisante da terra de ninguém.
O arame farpado é símbolo da guerra de trincheiras, da opressão e do sofrimento. Sobre ele, as papoulas, sementes para as futuras gerações.
As cabeças de picareta usadas pelas tropas de ambos os lados para cavar trincheiras e túneis; foram representadas pelo artista como parte do arame farpado para criar a linha da Frente Ocidental. A linha também é semelhante a uma ferida suturada que deve evocar a cicatriz que a Grande Guerra deixou na consciência humana. A esperança para o futuro é sugerida pelos “campos” de papoulas que cresceram na lama dos Campos de Flandres.
A guerra destruiu cidades, estradas e florestas, e deixou cicatrizes na paisagem, mas o capacete na parte inferior do painel simboliza a força e o poder de cura da natureza. As trincheiras, crateras, equipamentos militares e armas foram conquistados pela natureza. A mensagem para as gerações futuras é que a vida sempre vencerá a morte e a violência.
O cemitério de Langemarck é mantido pela Comissão Alemã de Túmulos de Guerra, o Volksbund Deutsche Kriegsgräberfürsorge