Eu amo as obras de Degas e quando soube que veria uma exposição de algumas obras dele no National Gallery pensei ser a combinação perfeita, mas não imaginei que poderia ser tão impressionante. Eu não conhecia Miss La La e descobri-la nas obras desse artista que tanto aprecio foi muito especial! 🎨
Miss La La no Cirque Fernando, de 1879, está entre as obras mais impressionantes e ousadamente modernas da coleção impressionista do National Gallery. Ela representa uma das modelos mais fascinantes do artista: a acrobata Miss La La, Anna Albertine Olga Brown (1858-1945).
A exposição conta as histórias extraordinárias de uma pintura excepcional e sua modelo!
Miss La La, nasceu em 1858 em Szczecin, Prússia (território que hoje corresponde à Polônia), sua mãe era europeia e seu pai afro-americano.
Miss La La se tornou uma estrela das acrobacias, viajou pelas cidades da Europa, transitando pelo mundo da moda e do entretenimento durante a Belle époque.
Olga Brown por volta de 1887
Em um momento em que as mulheres ocupavam posições secundárias, ela assumiu o controle de sua carreira e criou seus próprios números aéreos.
Miss La La entre 1880 e 1886
Olga, Kaira la Blanche, Popischill et le petit Kara (Trapèze Volant) fotógrafo desconhecido, Mucem, Marseille 'Discover Degas and Miss La La at the Cirque Fernando'.
Em 1879, Degas assistiu às suas apresentações no Cirque Fernando, em Paris. Hipnotizado por sua graça e agilidade, a representou em um de seus atos mais perigosos: quando, segurada apenas por uma corda presa entre os dentes, foi içada até o teto do circo.
Encantado por ela, Degas a esboçou mais de vinte desenhos e a convidou para posar em seu estúdio. A pintura resultante foi exposta na Quarta Exposição Impressionista em Paris, em 1879.
Miss La La era uma mulher negra, e, ao contrário de outras representações do período, ela foi exaltada por Degas!
O Cirque Fernando
Em meio à Belle époque, nas últimas décadas do século XIX, os locais de entretenimento na capital francesa aumentaram dramaticamente.
Inaugurado em 1875, o Cirque Fernando ficava em Montmartre, ali várias novidades e excentricidades aconteciam e eram atrativos para o público boêmio que frequentava o bairro.
Miss La La era exótica, talentosa e combinava perfeitamente com aquele momento histórico e sua atmosfera vibrante.
O Cirque Fernando se tornou um dos pontos de encontro para os artistas, que tinham acesso gratuito aos ensaios. Degas, cujo estúdio ficava a algumas quadras de distância, logo se tornou um frequentador.
François Appel, 'Miss La La et Troupe Kaira'. Bibliothèque nationale de France, Département des Estampes et de la photographie,1880.
Filho de uma mãe crioula estadunidense, de Nova Orleans, Degas observou durante uma viagem à Louisiana, em 1872, a diversidade étnica que não existia na Europa. Esta viagem provavelmente formou seu interesse e abordagem artística que ele utilizou ao representar Olga, sete anos depois.
Miss La La no Cirque Fernando é uma das duas únicas pinturas de Degas representando uma pessoa negra.
Como não prender a respiração enquanto a Miss La La sobe em direção às vigas do Cirque Fernando, suspensa por uma corda que segura entre os dentes?
Degas se concentrou em sua pintura por várias semanas.
Hilaire-Germain-Edgar Degas (1834-1917). Senhorita La La no Cirque Fernando, 1879. Óleo sobre tela. Galeria Nacional, Londres
O grande número de estudos preparatórios demonstra o quão intensamente ele trabalhou neste projeto. O trabalho deslumbrante é, sem dúvida, seu experimento mais ousado todas as demais representações que realizou.
Hilaire-Germain-Edgar Degas. (1834-1917). Caderno 23, páginas 36 e 37, cerca de 1879. Lápis sobre papel. Bibliothèque Nationale de France, Département des Estampes et de la photography.
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Degas carregava este caderno com ele quando assistia à apresentação da
Miss La La no circo. Ele se sentava na fileira mais alta para ter a melhor visão possível para realizar esboços.
Aqui ele representou as vigas do teto, colunas ornamentadas, janelas quadradas, adicionando anotações de cores.
Outro esboço a lápis mostra Miss La La como uma figura de perfil, braço estendido: as linhas principais da composição já estão no lugar.
Estes desenhos são tão intimamente relacionados que podem ter sido feitos durante a mesma sessão e mapeiam todo o progresso da acrobata.
Hilaire-Germain-Edgar Degas (1834-1917). Senhorita La La no Cirque Fernando, 1879. Carvão e lápis preto sobre papel. Coleção particular
Degas desenhou os contornos do rosto de Miss La La três vezes, mas suas feições, de perfil, são pouco visíveis. Este estudo foi exibido pela última vez há quase setenta anos e foi publicado apenas uma vez, no catálogo da venda póstuma da artista, em 1919.
Finalizado em 25 de janeiro de 1879, este é o último dos desenhos e pastéis datados de Degas e provavelmente o último em seu projeto.
Hilaire-Germain-Edgar Degas. Senhorita La La no Cirque Fernando, 1879. Giz preto e pastel sobre papel. The Henry Barber Trust de Belas Artes, Universidade de Birmingham.
O artista combinou elementos de observações anteriores, adicionando destaques de pastel amarelo para renderizar a franja dourada no traje de Olga. A folha é quadrada para transferir o desenho para a tela. Degas seguiu o método acadêmico, progredindo de esboços no local para estudos de estúdio, antes da pintura em si. Seu tema é moderno, mas o processo permanece tradicional.
Degas enviou a obra para a Quarta Exposição impressionista em Paris. Foi uma de suas obras mais ambiciosas já exibidas em qualquer uma dessas exposições independentes.
A pintura atraiu pouca atenção e não foi vendida. Degas a manteve em seu estúdio por quase 25 anos, antes de ser enviada para exposições fora da França como parte de uma grande exposição impressionista em Londres, em 1905.
Comprada por um bilionário canadense, a pintura passou os próximos vinte anos em Toronto, antes de ser comprada para a National Gallery em 1925. Degas já havia morrido e Olga estava, há muito aposentada em Bruxelas e, provavelmente, nunca viu a pintura na National Gallery.
No entanto, Miss La La inspirou pintores britânicos em diversas obras de arte com temática circense: celebrações de agilidade, movimento e cor, imbuídas da mesma atmosfera de excitação da pintura de Degas.
Miss La La fora do circo
Seu casamento, em 1888, com Manuel Woodson, um afro-americano contorcionista do Missouri, não encerrou sua vida profissional. Uma década depois, a família se estabeleceu em Bruxelas, onde Olga administrava um café e uma pousada para artistas de palco. Ela também administrava as carreiras de sua sobrinha e filha. Olga morreu em Bruxelas em 1945.
Olga Brown Woodson, entre 80 e 82 anos, 1938-1940
Outras obras com representações circenses impressionistas na National Gallery
Pierre Auguste Renoir (1841-1919). Acrobatas no Cirque Fernando - Francisca e Angelina Wartenberg, 1879. Óleo sobre tela
Renoir, impressionista como Degas, também era um frequentador ávido de circo. No início de 1879, ele também foi ao Cirque Fernando, onde admirou as irmãs acrobatas Francisca (esquerda) e Angelina (direita) Wartenberg. Usando trajes idênticos aos da Srta. La La, elas concluíram sua apresentação fazendo uma reverência, recolhendo laranjas atiradas pelo público. Renoir pintou as meninas em seu estúdio, para obter luz natural. Comparado-o a Degas, ele favoreceu uma pose estática e atitudes mais convencionais.
Maurício Blum (1831-1909). Os artistas de circo (A Leçon de Maintien), 1875. Óleo sobre tela.
Os circos eram locais da moda em Paris, fornecendo motivos infinitos para os artistas. As pinturas de Maurice Blum do Cirque Fernando eram populares no Salão de Paris - a exposição oficial francesa patrocinada pelo Estado. Situada na estrutura original de madeira e lona do circo, esta cena representa o palhaço treinando um poodle para saudar a cavalo. Montando outro cachorro, um macaco sorri ferozmente.
Teresa Lessore (1884-1945). Os aventureiros. Óleo sobre tela
Lessore representou artistas de circo em várias ocasiões entre 1927 e 1934. Os arcos curvos do edifício, colunas de metal verde e linhas oblíquas formadas pelo holofote direcionado aos trapezistas parecem ecoar a composição de Degas. Nascida em uma família artística, Lessore se casou com Walter Sickert em 1926 e compartilhou com ele o amor pelo teatro e pelo circo, refletido em muitas de suas obras.
O Museu Afro-Brasil, no Ibirapuera, em São Paulo, apresenta a população afro-brasileira a partir da ótica da igualdade e do pertencimento.
Ali, por meio da valorização da diversidade étnica dos povos africanos do passado e de suas estratégias de resistência à escravidão, as obras expostas demonstram como os afro-brasileiros se tornaram formadores fundamentais da nossa população e cultura.
Povos africanos e obras representados no Museu-Afro Brasil
Representações dos poderosos reinos africanos e a enorme diversidade étnica na África e na América ao longo de centenas de são os principais assuntos abordados por esse espaço expositivo.
Bastões de Moçambique, madeira e fita, sem data. Reprodução da obra de Johann Moritz Rugendas, Festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, 1835.
Por séculos, foi negado aos afro-brasileiros o direito à memória e ao passado, inclusive embranquecendo negros e mulatos por seus feitos. Resgatar a identidade, relevância e história de figuras negras é o principal objetivo dessa exposição.
Raphael Galvez A morte do Zumbi (1940)
Madalena Schwartz Retratos - de cima para baixo:
- Solano Trindade: poeta pernambucano, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta, 1969.
- Abdias Nascimento: ator, diretor, dramaturgo, ativista social e fundador do teatro experimental negro, 1951.
- Octávio Araújo: pintor paulista, gravador, desenhista e ilustrador, 1975
- Pelé: jogador de futebol, 1982.
Madalena Schwartz Retratos - de cima para baixo:
- Clementina de Jesus: sambista carioca, 1978.
- Aizita Nascimento: atriz e modelo carioca, 1975.
- Marina Montoni: atriz e modelo carioca.
- Ruth de Souza: atriz carioca, 1983.
Soldados afro-brasileiros em diversos conflitos ao longo da história do país
Busto do soldado, sem data
Montagem - capa da Revista Ilustrada comemorativa à abolição da escravidão, maio de 1888. Fotografia da Princesa Isabel, governante regente do Brasil, luvas que pertenceram à princesa e escultura que a representa em madeira.
Jornalista abolicionista José do Patrocínio - documentos de alforria e testamento, 1879
"Bom Jesus Conselheiro, o mais famoso chefe carismático do Brasil, surge sempre vestido num surrado camisolão azul, barbas e cabelos compridos, magríssimo, alimentando-se muito pouco, o 'Santo Conselheiro' gostava, todavia, de pregar aos sertanejos nordestinos, indicando-lhes, nos conselhos que dava, o caminho da saIvação, combatendo o regime republicano, apontado como criação do demônio..."
José Calasans (Museu Afro)
Trabalho e escravidão
O trabalhador africano foi essencial em todos os ciclos econômicos da colônia - nos espaços urbanos ou rurais e, posteriormente, da nação, gerando riquezas e contribuindo com a qualificação em trabalhos especializados. Na maior parte dos 500 anos da presença desses grupos na América portuguesa, no Império e República, esses trabalhadores foram alvo de violência, preconceito e crueldade.
Pães de Açúcar, forma utilizada para cristalizar o melaço.
Diversas formas de trabalho realizado pelos africanos ao longo do período colonial
Nesse espaço existem diversas ferramentas utilizadas pelos afro-brasileiros para realizar os mais diversos tipos de trabalho especializado na colônia.
Porta de oficina de ferreiro
Barbeiros ambulantes (título da obra do artista francês Jean Baptiste Debret - reproduzida acima) eram escravizados de ganho que circulavam pelas cidades, principalmente pela capital Rio de Janeiro, e ofereciam seus serviços de cabelereiro, barbeiro e sangrador - colocavam sanguessugas atrás dos ouvidos, dos olhos ou no peito das pessoas para tirar o sangue "ruim" e curar o doente.
Réplica de navio negreiro ou tumbeiro - transporte dos escravizados
Montagem utilizando a obra de Rugendas, Navio Negreiro
O cristianismo foi imposto aos africanos escravizados e tornou-se, ao longo dos séculos, espaço de sincretismo e preservação da cultura africana.
Sagrado é ligado ao divino e seus símbolos e desperta o respeito daqueles que acreditam nesse simbolismo. Já o profano é oposto.
Nos trezentos anos em que o território que hoje é o Brasil foi colônia de Portugal, as obras de arte eram exclusivamente religiosas e os artistas aprendiam seus ofícios em corporações de ofício com mestres artesãos. Como, em geral, a sociedade colonial via o trabalho manual como um trabalho inferior, escultores, douradores, pintores, talhadores, carpinteiros, eram africanos ou mestiços, como Aleijadinho, grande artista mineiro do barroco.