Aqui só tem História

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O túmulo do Soldado Desconhecido, em Londres

Na Abadia de Westminster fica o túmulo do Soldado Desconhecido. 


O corpo foi trazido da França para ser enterrado aqui em 11 de novembro de 1920. O túmulo, que contém solo da França, é coberto por uma laje de mármore preto belga e a epígrafe, composta por Herbert Ryle, Reitor de Westminster. 

 

Sob esta pedra descansa o corpo de um soldado britânico, desconhecido quanto ao nome e à patente.

Trazido da França para repousar entre os mais ilustres do reino, foi enterrado aqui no Dia do Armistício, em 11 de novembro de 1920, na presença de Sua Majestade o Rei George V, de seus ministros, dos chefes das Forças Armadas e de numerosos súditos da nação.

Assim se homenageiam os muitos que, durante a Grande Guerra de 1914–1918, deram o que um homem pode oferecer de mais precioso, a própria vida, por Deus, pelo Rei, pela pátria e por seus entes queridos, pela sagrada causa da justiça e da liberdade no mundo.

Ele foi sepultado entre os reis porque serviu fielmente a Deus e ao seu país.

(acima): O Senhor conhece os seus.
(laterais): Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida. / Desconhecido e, ainda assim, conhecido. / Morrendo, e eis que vivemos em Cristo; todos ressuscitarão.

O Guerreiro Desconhecido

A ideia de homenagear os milhares de soldados britânicos foi do capelão que acompanhou o exército na Frente Ocidental, David Railton (1884-1955). Ele notou, em 1916, em Armentières, uma sepultura com uma cruz simples na qual estavam escritas as palavras "Um Soldado Britânico Desconhecido". 

O reverendo David Railton recebeu a Cruz Militar por sua coragem no front. Ele sofreu danos oculares causados ​​pelo gás mostarda e do tormento mental do choque pós-traumático.

A sepultura e a lápide de madeira simples de um soldado britânico desconhecido em Thiepval, em setembro de 1916. A cruz traz a inscrição "Descanse em paz. Em memória de um soldado britânico desconhecido encontrado e enterrado em 25/11/1915".

Em agosto de 1920, o reverendo escreveu ao Reitor de Westminster, Herbert Ryle, que se empenhou para que o memorial fosse concebido. 

O corpo foi escolhido entre militares britânicos desconhecidos exumados em quatro áreas de batalha Frente Ocidental, Aisne, Somme, Arras e Ypres.

O corpo do Guerreiro Desconhecido pode ser de qualquer uma das três forças: exército, marinha ou força aérea, e de qualquer parte das Ilhas Britânicas, Domínios ou Colônias, e representa todos aqueles que morreram sem outro memorial ou sepultura conhecida.

O caixão foi colocado dentro de outro, enviado especialmente da Inglaterra, feito de carvalho, proveniente de uma árvore do jardim do Palácio de Hampton Court, revestido de zinco. Ele foi coberto com a bandeira que David Railton usou como toalha de altar durante a guerra (conhecida como Ypres ou Bandeira do Reverendo, que agora está pendurada na Capela de São Jorge). 

A placa do caixão trazia a inscrição: Um guerreiro britânico que caiu na Grande Guerra de 1914-1918 pelo rei e pelo país.

https://www.dailymail.co.uk/news/article-5071527/Padre-s-crusade-ensure-soldiers-NEVER-forgotten.html
A bandeira do reverendo David Railton é pendurada sobre o túmulo do Guerreiro Desconhecido durante a cerimônia do Dia da Lembrança (Remembrance Day), em Westminster todos os anos. 

O destróier HMS Verdun transportou o caixão da França para para Dover e depois foi levado de trem para a estação Victoria, em Londres, onde descansou durante a noite.

O enterro


Na manhã de 11 de novembro de 1920, o caixão foi colocado, pelo grupo de portadores do 3º Batalhão de Guardas Coldstream, em uma carruagem puxada por seis cavalos pretos da Artilharia Montada Real. 

Em seguida, iniciou sua jornada pelas ruas lotadas, fazendo sua primeira parada em Whitehall, onde o Cenotáfio foi inaugurado pelo Rei George V. 


O Rei colocou sua coroa de rosas vermelhas e folhas de louro no caixão. Seu cartão dizia "Em orgulhosa memória daqueles guerreiros que morreram desconhecidos na Grande Guerra. Desconhecidos, mas ainda assim conhecidos; como morrendo, e eis que vivem. George RI, 11 de novembro de 1920". [George Rex. Imperator significa Rei e Imperador da Índia]. 

Em seguida, a carruagem seguiu para o norte porta da Abadia de Westminster. Após as orações houve dois minutos de silêncio às 11h. 

O caixão foi transportado para o extremo da nave. Estiver presente uma guarda de honra de 100 portadores da Cruz Vitória, membros do exército, marinha e força aérea britânica. 

O rei deu um passo à frente e deixou cair um punhado de terra francesa de uma concha de prata no caixão enquanto ele era baixado para a sepultura. 

Burial of the British Unknown Warrior, from a battlefield in WW1, in Westminster Abbey, 1920. Frank O. Salisbury

Estima-se que 1.250.000 pessoas visitaram a Abadia para ver o túmulo na semana seguinte ao funeral.

O túmulo


O túmulo foi então coberto por um manto funerário de seda bordada branca, que havia sido presenteado à Abadia pela União da Igreja dos Atores em memória de seus camaradas caídos, com a bandeira do Padre sobre ele. Militares vigiavam cada canto do túmulo enquanto milhares de pessoas em luto passavam. 

A sepultura foi preenchida, com 100 sacos de areia dos campos de batalha, no dia 18 de novembro e depois coberta por uma pedra temporária com uma inscrição dourada:

Um guerreiro britânico que caiu na Grande Guerra 1914-1918 pelo rei e pelo país. Não há amor maior que este. 

Para saber mais

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ypres, Belgica - Hooge Chateâu

Ao olhar de longe o pitoresco lago é difícil imaginar que na Primeira Batalha de Ypres, no outono de 1914,  a área de Hooge foi palco de embate entre os exércitos britânico e alemão. 

Na primavera e no outono de 1915, as menções a ele raramente desaparecia dos jornais e, por muito tempo, foi um dos lugares mais temidos pelos soldados britânicos. Aqui, os soldados da Frente Ocidental enfrentaram pela primeira vez os horrores das minas, do gás e dos lança-chamas.

que hoje é esse lago pitoresco, foi uma cratera causada pela explosão devastadora de uma uma mina detonada pelos britânicos em julho de 1915. 

Crateras eram estrategicamente importantes em terrenos relativamente planos. O castelo e a cratera  foram tomados pela pelos britânicos em agosto de 1915. As forças alemãs atacaram o castelo entre maio e  junho e, apesar da explosão da mina, assumiram o controle do castelo e da área. 

Em julho de 1917, Hooge foi retomada pelos britânicos quando conseguiram avançar cerca de um quilômetro e meio. Os alemães retornaram ao local em abril de 1918, mas foram expulsos da área pelos britânicos em setembro. Durante esse período, o castelo foi completamente destruído, assim como toda a vila; diversas crateras grandes, causadas por minas subterrâneas, foram abertas ao longo dos combates de 1917. 



Castelo de Hooge em 1913

A linha de frente das trincheiras avançou e recuou entre 1914 e 1918. O castelo foi bombardeado em 31 de outubro de 1914, matando os oficiais das três divisões britânicas que o utilizavam como quartel-general, as ruínas foram conquistadas diversas vezes por ambos os lados.


Hoje, Hooge é um hotel e memorial. A construção do prédio fica atrás da área onde estavam as trincheiras

Entre 1916 e 1917, ambos os lados usaram concreto na construção de posições fortificadas. O bunker foi construído no inverno de 1915-1916 com blocos de concreto encaixados e ferro. Ele está voltado diretamente para o local do antigo castelo, a 100 metros de distância, cujas ruínas estavam em poder dos alemães na época. 

Em 6 de junho de 1916, o bunker e as trincheiras ao redor foram capturados pelos alemães, que repeliram as tropas britânicas até a Estrada de Menin, a 50 metros de distância. A entrada do bunker, portanto, ficou vulnerável ao fogo britânico e, para protegê-la, os alemães construíram a "varanda" em forma de L que vemos hoje. 


Como a guerra de trincheiras havia se tornado o novo modo de vida, antigos métodos de cerco foram colocados em prática por ambos os lados. Um método para forçar uma brecha era cavar túneis sob a posição inimiga e detonar enormes minas sob suas posições. 


As Companhias de Escavação de Túneis


Apesar dos perigos de trabalhar tão perto da linha de frente, e até mesmo sob ela, muitos trabalhadores se voluntariavam devido ao salário.


A Companhia de Túneis dos Engenheiros Reais foi mobilizada para cavar um túnel de sessenta metros de comprimento, para destruir as trincheiras alemãs. O lençol freático nesta área é muito alto e a argila se expande assim que entra em contato com o ar, por isso os escavadores precisavam ser muito hábeis. 

Sua técnica — conhecida como "chutar argila" ou "trabalhar na cruz" — consistia em um homem sentado com as costas apoiadas em um suporte de madeira (a cruz) e empurrando uma pequena ferramenta afiada como uma navalha, semelhante a uma pá (uma ferramenta de enxerto), na face da argila à sua frente.

Era não apenas rápida e eficiente, mas também silenciosa.

Às 19h do dia 19 de julho de 1915, a mina foi detonada. Com cerca de 2.200 kg, era a maior mina detonada até então durante a guerra e foi um sucesso completo, criando um buraco com cerca de seis metros de profundidade e quase 40 metros de largura. Os britânicos conseguiram expulsar os alemães. 




A operação foi um sucesso. Sem qualquer bombardeio preliminar para alertar os alemães, eles foram pegos totalmente de surpresa.

Os alemães em Hooge, contudo, não deixariam as coisas como estavam. Quando o ataque de retaliação ocorreu em 30 de julho, trouxe consigo uma nova arma: lança-chamas (flammenwerfer).

Lança-chamas alemães durante a Primeira Guerra Mundial na Frente Ocidental, 1917.

Após as 3 da manhã de 30 de julho de 1915, os Stosstruppen alemães, ou "tropas de choque", fizeram uso eficaz do flammenwerfer, com tanques de gás portáteis amarrados às costas e bicos acesos acoplados para cada cilindro. O ataque repentino com a nova arma provou ser extremamente enervante para os britânicos, e sua linha foi imediatamente empurrada para trás.

O lança-chamas era útil apenas para curta distância e era pesado e difícil de operar, o combustível durava apenas cerca de 2 minutos. Os alemães usaram esse armamento em mais de 650 ataques.


Os "rabos de porco" (em inglês, pigtail pickets) eram estacas de aço com a ponta em forma de espiral, amplamente utilizadas na Primeira Guerra Mundial para a instalação rápida e silenciosa de cercas de arame farpado.

Grupos de soldados saíam das trincheiras à noite para à terra de ninguém para posicionar os
"rabos de porco" e, na sequência, passar o arame farpado para formar obstáculos defensivos contra o avanço dos inimigos.





Hooge Crater Museum
Hooge Crater Museum

Iron Harvest 


Desde o final da I Guerra, toda a área de Ypres e arredores realiza esforços para remover as munições e ​​fragmentos não detonados, disparadas há mais de um século, que aparecem na superfície ou ainda estão no solo. 



Estima-se que havia 1 tonelada de munição por metro quadrado de território ao longo da Frente Ocidental, e somente na região de Ypres, 300 milhões de projéteis não detonados foram disparados. Nas áreas de grandes batalhas, ainda existem cerca de 300 projéteis por hectare, apenas nos 15 centímetros superficiais do solo, que permanecem não detonados. No ritmo atual de remoção, estima-se que levará de 300 a 700 anos para que toda a munição seja completamente removida

Vista aérea da região de Ypres durante a I Guerra Mundial



Atualmente, 5.916 militares da Commonwealth que serviram na Primeira Guerra Mundial estão sepultados ou são homenageados neste cemitério. Destes, 3.570 são de soldados não identificados. 
Memoriais especiais registram os nomes de milhares de vítimas que se sabe ou acredita-se estarem sepultadas entre eles, ou cujos túmulos em outros cemitérios foram destruídos por bombardeios.

Para acessar a lista de nomes e causas das mortes dos soldados no British cemitery of Hooge, acesse: https://www.cwgc.org/find-records/find-war-dead/search-results/?CemeteryExact=true&Cemetery=HOOGE+CRATER+CEMETERY&v=9c20aa33e7964a7e896a870c85cc0cfa


Para saber mais: 



terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Revanchismo francês em esculturas do Petit Palais, em Paris

Nos anos que se seguiram à Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), foram erguidos em toda França monumentos para homenagear os soldados nos campos de batalha.

Enquanto as conflitos anteriores celebravam os oficiais, sempre montados a cavalo e elegantes em uniformes, os monumentos da Guerra Franco-Prussiana homenageavam o soldado comum, a população civil massacrada e idealizava os territórios perdidos da Alsácia-Lorena. 

O desejo de vingança se intensificou em torno desses monumentos durante as cerimônias, cujo nacionalismo cada vez mais radical abriu caminho para a mobilização durante a Primeira Guerra Mundial.

A Defesa de Paris

Para homenagear a resistência dos parisienses durante a Guerra Franco Prussiana (1870-1871), houve um grande concurso de escultura em 1879. Quase cem escultores, incluindo Rodin, apresentaram um projeto. Ernest Barrias, o vencedor do concurso, criou o monumento final, inaugurado em 1883. 

O monumento daria nome ao distrito comercial de La Défense, de onde as tropas francesas resistiram ao cerco dos prussianos e, derrotados, partiram em 19 de janeiro de 1871. 

Ernest Barrias (Paris, 1841-1905)


Vemos três figuras que simbolizam a defesa de Paris: uma mulher, vestida com o uniforme da Guarda Nacional, apoiada num canhão e segurando uma bandeira, figura alegórica da cidade de Paris; um jovem guarda que coloca a última bala no seu fuzil; do outro lado do monumento, uma menina prostrada que, com a sua expressão triste e aparência miserável, personifica o sofrimento da população civil.


Todos esses vestígios da Guerra Franco-Prussiana de 1870 sugerem que, na França, as derrotas são tão, ou até mais honradas que as vitórias. 

Após 104 dias de resistência, a cidade se rendeu. Nos meses que se seguiram ao cessar-fogo, uma série de acordos foram concluídos para ratificar a derrota francesa, e culminaram no Tratado de Frankfurt, em 10 de maio, que pôs fim à Guerra Franco-Prussiana, estipulando a perda da Alsácia e de parte da Lorena, o pagamento de uma indenização de guerra de cinco bilhões de francos-ouro e, como golpe final, um desfile de tropas prussianas em Paris.


A Suíça socorrendo as dores de Estrasburgo durante o cerco de 1870

Auguste Bartholdi (Colmar, 1834 - Paris, 1904). Bronze, 1899

Uma Suíça guerreira e de capacete usa seu escudo para proteger uma Alsácia devastada, reconhecível por seu adorno de cabeça (o laço). 


O monumento referência a um episódio trágico da Guerra Franco Prussiana: durante o terrível cerco de Estrasburgo pelo exército prussiano, a Confederação Suíça negociou com a Alemanha a permissão para que a população civil (mulheres, crianças e idosos mantidos em cativeiro em Estrasburgo durante os terríveis bombardeios) deixasse a cidade sitiada.


O grupo é composto por oito figuras: quatro em primeiro plano e quatro ao fundo. Em primeiro plano, amparada por um anjo, a cidade de Estrasburgo, uma figura feminina vestida com traje alsaciano, junto com uma criança nua, busca refúgio na Suíça, uma figura feminina vestida com traje clássico cuja égide protetora é gravada com uma cruz, uma lembrança daquela que, desde a Convenção de Genebra de 1864, simboliza a organização humanitária internacional da Cruz Vermelha.


Ao fundo, de costas para o observador, uma jovem mãe carrega e aconchega seus dois filhos nus; a seus pés, semi nu, com o olhar perdido na distância, um adolescente ferido reúne forças. 

Em direção à pátria

Charles Jacquot (Bains, 1865-1930), Ad patriam (Em direção à pátria), 1893

Uma jovem da Alsácia, reconhecível por seu cocar com um grande laço, luta para carregar seu irmão adormecido nos braços. 



A jovem cruzou a fronteira que separou a Alsácia da França, após a guerra de 1870. De forma comovente, a menina personifica o difícil destino do povo alsaciano que se recusou a adotar a nacionalidade alemã por razões patrióticas. 

📚 Para saber mais sobre a Guerra Franco Prussiana: