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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Revanchismo francês em esculturas do Petit Palais, em Paris

Nos anos que se seguiram à Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), foram erguidos em toda França monumentos para homenagear os soldados nos campos de batalha.

Enquanto as conflitos anteriores celebravam os oficiais, sempre montados a cavalo e elegantes em uniformes, os monumentos da Guerra Franco-Prussiana homenageavam o soldado comum, a população civil massacrada e idealizava os territórios perdidos da Alsácia-Lorena. 

O desejo de vingança se intensificou em torno desses monumentos durante as cerimônias, cujo nacionalismo cada vez mais radical abriu caminho para a mobilização durante a Primeira Guerra Mundial.

A Defesa de Paris

Para homenagear a resistência dos parisienses durante a Guerra Franco Prussiana (1870-1871), houve um grande concurso de escultura em 1879. Quase cem escultores, incluindo Rodin, apresentaram um projeto. Ernest Barrias, o vencedor do concurso, criou o monumento final, inaugurado em 1883. 

O monumento daria nome ao distrito comercial de La Défense, de onde as tropas francesas resistiram ao cerco dos prussianos e, derrotados, partiram em 19 de janeiro de 1871. 

Ernest Barrias (Paris, 1841-1905)


Vemos três figuras que simbolizam a defesa de Paris: uma mulher, vestida com o uniforme da Guarda Nacional, apoiada num canhão e segurando uma bandeira, figura alegórica da cidade de Paris; um jovem guarda que coloca a última bala no seu fuzil; do outro lado do monumento, uma menina prostrada que, com a sua expressão triste e aparência miserável, personifica o sofrimento da população civil.


Todos esses vestígios da Guerra Franco-Prussiana de 1870 sugerem que, na França, as derrotas são tão, ou até mais honradas que as vitórias. 

Após 104 dias de resistência, a cidade se rendeu. Nos meses que se seguiram ao cessar-fogo, uma série de acordos foram concluídos para ratificar a derrota francesa, e culminaram no Tratado de Frankfurt, em 10 de maio, que pôs fim à Guerra Franco-Prussiana, estipulando a perda da Alsácia e de parte da Lorena, o pagamento de uma indenização de guerra de cinco bilhões de francos-ouro e, como golpe final, um desfile de tropas prussianas em Paris.


A Suíça socorrendo as dores de Estrasburgo durante o cerco de 1870

Auguste Bartholdi (Colmar, 1834 - Paris, 1904). Bronze, 1899

Uma Suíça guerreira e de capacete usa seu escudo para proteger uma Alsácia devastada, reconhecível por seu adorno de cabeça (o laço). 


O monumento referência a um episódio trágico da Guerra Franco Prussiana: durante o terrível cerco de Estrasburgo pelo exército prussiano, a Confederação Suíça negociou com a Alemanha a permissão para que a população civil (mulheres, crianças e idosos mantidos em cativeiro em Estrasburgo durante os terríveis bombardeios) deixasse a cidade sitiada.


O grupo é composto por oito figuras: quatro em primeiro plano e quatro ao fundo. Em primeiro plano, amparada por um anjo, a cidade de Estrasburgo, uma figura feminina vestida com traje alsaciano, junto com uma criança nua, busca refúgio na Suíça, uma figura feminina vestida com traje clássico cuja égide protetora é gravada com uma cruz, uma lembrança daquela que, desde a Convenção de Genebra de 1864, simboliza a organização humanitária internacional da Cruz Vermelha.


Ao fundo, de costas para o observador, uma jovem mãe carrega e aconchega seus dois filhos nus; a seus pés, semi nu, com o olhar perdido na distância, um adolescente ferido reúne forças. 

Em direção à pátria

Charles Jacquot (Bains, 1865-1930), Ad patriam (Em direção à pátria), 1893

Uma jovem da Alsácia, reconhecível por seu cocar com um grande laço, luta para carregar seu irmão adormecido nos braços. 



A jovem cruzou a fronteira que separou a Alsácia da França, após a guerra de 1870. De forma comovente, a menina personifica o difícil destino do povo alsaciano que se recusou a adotar a nacionalidade alemã por razões patrióticas. 

📚 Para saber mais sobre a Guerra Franco Prussiana: 


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

🎬 Vale a pena assistir - A Grande Fuga



Em 5 de junho de 2014, o veterano da Marinha Real inglesa na Segunda Guerra Mundial, Bernard Jordan (Michael Caine), de 89 anos, viveu uma incrível aventura: escapou da casa de repouso para participar das comemoração aos 70 anos do Dia D, na Normandia. 
Escapou porque, como perdeu o prazo para ir "oficialmente", Bernie e sua esposa Irene decidiram que ele iria por conta própria, sem avisar os funcionários da casa de repouso que poderiam tentar impedi-lo. Vestiu seu casaco, colocou suas medalhas e condecorações e partiu para pegar o ferry e atravessar o Canal da Mancha rumo à França.  

Quando a equipe de funcionários deu da sua ausência, ele já estava longe... Polícia, bombeiros e a mídia começam a procurar Bernie, apelidado de  “grande fugitivo”. 
No ferry, encontra-se com outros veteranos e conhece um ex-piloto da RAF (Royal Air Force). Juntos, eles relembraram o passado, o desembarque e seus companheiros abatidos no dia 06 de junho de 1944. 


Omaha Beach horas depois do início do desembarque aliado
Le Musée Mémorial de la Bataille de Normandie

Em um dos momentos mais emocionantes, no cemitério britânico, Bernie teve um lampejo de raiva diante dos milhões de quantidade de túmulos, diante do imenso desperdício de vidas daqueles que lutaram por seus países. “Meus pensamentos estavam com meus companheiros que foram mortos. Eu fui prestar meus respeito”, disse Jordan na volta para a Inglaterra. 


156.000 soldados aliados invadiram as praias da Normandia naquele dia. Estima-se que 2.500 a 4.000 morreram lá. Outros 9.000 defensores alemães também morreram nos desembarques.
Para mim, esse foi um dos momentos mais emocionantes, me identifiquei diante daquele desabafo. Eu senti exatamente isso ao visitar o cemitério estadunidense. Não consegui visitar os outros, fiquei muito abalada com todas aquelas milhares de vidas perdidas. 


A cruz exposta no Memorial de Caen ☝️ foi uma das milhares de cruzes provisórias utilizadas no cemitério militar anglo-canadenses em May-sur-Orne, 1944. O nome e o número do registro dos soldados eram registrados no ponto mais baixo. 

Le Musée Mémorial de la Bataille de Normandie


No Dia-D propriamente dito, as tropas Aliadas sofreram mais de 10.000 perdas: as forças britânicas e canadenses perderam 3.700 pessoas; os EUA tiveram uma perda de 6.600 homens. Os alemães perderam entre 4.000 a 9.000 soldados.



Bernard Jordan acena feliz aos jornalistas na sua volta para a Inglaterra após sua grande aventura. 

Bernie e Irene se casaram em 1946 e permaneceram juntos até a morte, em  2015.
A história de Bernie e Irene me lembrou algumas histórias que conheci quando visitei as praias da Normandia, em 2023 e me tocaram, como as do Sargento Walter Geldon, em Pont du Hoc, em Omaha. 


Sargento Walter Geldon, Companhia C, 2º Batalhão de Rangers, 6 de junho de 1944 foi o terceiro aniversário de seu casamento. Ele e seus companheiros Rangers cantaram canções para comemorar a ocasião pouco antes de desembarcar em Omaha. O antes trabalhador siderúrgico de 23 anos, da Pensilvânia, foi abatido por fogo inimigo poucos minutos depois de desembarcar. Quando sua viúva morreu em 2002, aos 78 anos, ela foi enterrada ao seu lado no cemitério americano, na Normandia.

No Airborne Museum, em Saint-Mère-Église, conheci, pelo telefone, a história de Jack N. Womer e seu amor, Theresa. 


A narração da carta relata as dificuldades, o medo, a saudade e a vontade de se casar com ela assim que a guerra acabasse. 
Exposto ao lado, um álbum de memórias, com comentários do paraquedista. 

Álbum de memórias de Jack N. Womer, com recordações dos anos entre 1942-1945


Dog Tag de Jack N. Womer e fotografia de sua futura esposa, Theresa

Homenagens aos veteranos na Catedral Notre Dame de Bayeaux pelos 70 anos do Desembarque, em 1944. 


As cidades da Normandia são repletas de bandeirolas aliadas pelas ruas, uma lembrança da gratidão do povo francês pela libertação. 


2024: 80 anos do desembarque na Normandia


🎬  Onde assistir


📚 Vale a pena ler

A World A World War II Veteran Escaped from a Nursing home for the 70th aniversary of D-Day: https://www.military.com/history/world-war-ii-veteran-escaped-nursing-home-70th-anniversary-of-d-day.html

domingo, 13 de outubro de 2024

Guernica e o ensaio para a Segunda Guerra Mundia

O bombardeio a Guernica


LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 12


Gernika, no país basco, norte da Espanha, foi a primeira cidade alvo de um bombardeio planejado em grande escala e uso massivo de bombas. Na segunda feira, 26 de abril de 1937, foram lançadas entre 31 e 41 toneladas de bombas, seguindo um plano de ataque que seria usado em outras partes da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. 


LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 48. 

O bombardeio foi um teste para a Luftwaffe, a força aérea alemã. O objetivo oficial era a destruição de uma ponte para impedir a retirada das tropas bascas em direção a Bilbao. 

LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 56

Incialmente foram lançadas bombas entre 50 e 200 quilos destinadas a destruir edifícios, seguidas por bombas incendiárias que provocaram um incêndio incontrolável. As temperaturas atingiram mais de 1.500˚. As chamas que consumiram Gernika puderam ser vistas a muitos quilômetros de distância. 

Os sobreviventes que tentavam fugir do centro urbano em chamas foram metralhados pelos caças. 


LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 60

A força desproporcional do ataque foi uma eficiente forma de desmoralizar as tropas e desencorajar a população civil a resistir aos franquistas.


     Calcula-se que cerca de 1654 pessoas foram mortas, 890 ficaram gravemente feridas  e 85% dos edifícios da cidade foram destruídos no bombardeio. No entanto, os mais de 60.000 m3 de escombros só seriam removidos totalmente no final de 1941. O regime de Franco procurou eliminar o registos elaborados pelas autoridades bascas, apagando a memória das vítimas. O trabalho de investigação continua até hoje.


Recorte do jornal Azul, em que a responsabilidade pela destruição da vila é atribuída aos republicanos.

“O incêndio ocorreu ontem e Aguirre (presidente da República) lançou a mentira - infame - porque é um criminoso comum, de atribuir esse crime à heróica e nobre aviação do nosso Exército Nacional. provar a todo momento que a aviação nacional não voou por causa do nevoeiro [...] a Espanha reconquistada por Franco, serena, calma, livre, feliz, junto com o Exército Nacional que derrota o inimigo e reconstrói a sua pátria [.. .] as hordas vermelhas assassinam, mártires, queimam, destroem, trazem o caos por toda parte"



Recriação do bombardeio a cidade no Museo de la Paz de Gernika




"Sair do abrigo e ver aquilo foi horrível. O parque de diversões inteiro estava pegando fogo, tudo pegava fogo. Todo mundo tremia. Como poderíamos imaginar que isso iria acontecer! Uma cidade inteira pegando fogo! Nem estávamos falando sobre isso. como estávamos com medo!"

Cava Mesa, Maria Jesus e Alii. Memória coletiva do bombardeio.

Picasso e o Guernica 


Picasso imortalizou os horrores do atentado em sua grandiosa obra Guernica - hoje no Museo Reina Sofia, em Madrid.  

Acervo Kerol

Os jornalistas que noticiavam os acontecimentos da Guerra Civil, e especialmente o correspondente britânico George Steer, deram a conhecer ao mundo inteiro a notícia deste atentado. No dia 28 de abril, a notícia apareceu na primeira página dos jornais mais importantes do mundo democrático - Portugal, Itália, Alemanha e Japão, aliadas a Franco na luta contra os republicanos, censuraram o acesso a essas informações.

LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 12

Picasso vivia em Paris e soube sobre o bombardeio pela imprensa internacional e decidiu representá-lo em uma obra. 

Acervo Kerol

LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 12

LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 12


Acervo Kerol

Acervo Kerol
Dora Maar Reportage sur l'évolution de Guernica

Mater Dolorosa: Las mujeres de Guernica


Acervo Kerol

Cabeza de mujer llorando con pañuelo (II e III)
Postscript of Guernica, 1937
Acervo Kerol

Cabeza de mujer llorando con pañuelo (VII e VIII)
Postscript of Guernica, 1937
Acervo Kerol

Acervo Kerol


Madre con niño morto (I) 
Postscript of Guernica, 1937
Acervo Kerol

LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. p. 57


Outros bombardeios e outras mães


Madrid 1937 (ou Aviones Negros)Horacio Ferrer 

Acervo Kerol

Também conhecida como “Aviões Negros", essa obra aborda um bombardeio a Madrid, durante a Guerra Civil, daí sua proximidade a Guernica. A obra de Picasso, por meio de simbolismos, representa as consequências do bombardeio, enquanto Madrid, fazendo uso do realismo, representa o movimento e a dor e o desespero de mulheres e crianças durante o ataque das tropas de Franco. 


📚 Vale a pena ler

LOTH, Bruno. Guernica. Porto Alegre: L&PM, 2022. 

Para ler um trecho da obra, acesse: https://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=645528&ID=917351

Depoimentos dos sobreviventes: https://www.museodelapaz.org/docu_bombardeo.php

El bombardeo de Guernica en 1937, la masacre que inspiró a Picasso: https://historia.nationalgeographic.com.es/a/bombardeo-guernica-1937-masacre-que-inspiro-a-picasso_12702

Museu de la paz de Gernika: https://gernikainfo.eus/que-ver/museos-de-gernika/museo-de-la-paz/

A história do fuzilamento de uma mãe enterrada com o chocalho do filho: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/07/internacional/1557240719_368278.html