Aqui só tem História

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segunda-feira, 28 de julho de 2025

Uma múmia americana no Musée de l'Homme, em Paris

Esta múmia é uma das peças mais impressionantes do Musée de l'Homme, em Paris 😲

Encontrada em 1877, pelo explorador Paul Vidal-Senèze no penhasco de difícil acesso de Piedra Grande, no Vale de Utcubamba, na região amazônica do Peru, ela fez parte do acervo do Museu do Homem desde sua abertura. Ao longo de mais de um século, seu rosto expressivo e as órbitas oculares vazias aterrorizam e povoam gerações visitantes. 

André Delpuech, diretor do Musée de l'Homme, relata que a ausência dos olhos, a boca aberta, e as mãos que parecem apertar o rosto inspiraram como o artistas Edvard Munch, com sua pintura "O Grito".

Edvard Munch, 1893, The Scream, National Gallery of Norway

Pertencente ao povo chamado Chachapoyas, os "guerreiros das nuvens",  Entre os séculos VIII e XV, esse povo, assim como outros povos pré-colombianos, colocavam seus mortos em cavidades nas montanhas, muitas vezes em altitudes superiores a 3.000 metros. Geralmenteas múmias eram colocadas em posição fetal e os corpos envoltos por tecidos protetores e roupas decoradas. 

Os Chachapoyas eram hábeis construtores e suas técnicas arquitetônicas se refletem nesses incríveis complexos funerários em penhascos da região amazônica peruana. 

Mausoléus de Revash, túmulos da antiga cultura Chachapoyas

O explorador levou para a França quatro múmias em sarcófagos cônicos de argila, encimados por figuras humanas. Cada uma estava envolta em um fardo de couro. Elas foram doadas ao Museu em 1878. 

As equipes do Musée de l'Homme a estudaram utilizando métodos sofisticados, o que lhes permitiu descobrir se tratar de um homem, entre 20 e 30 anos, com aproximadamente 1,70 m de altura. Ele sofria de uma doença pulmonar infecciosa, possivelmente tuberculose, a qual pode ter causado sua morte. 


O cérebro foi removido após a morte por meio de uma extração de 5 cm de diâmetro no crânio. O corpo foi colocado sentado, com as pernas dobradas sob o queixo, preso por uma corda. Vestígios de insetos indicam que a morte ocorreu durante a estação mais quente do ano, entre agosto e outubro, e que o envoltório foi feito menos de seis dias após a morte.\


Referências 

https://www.museedelhomme.fr/fr/momie-chachapoya


Para conhecer outras múmias da América Latina, acesse: 

segunda-feira, 21 de abril de 2025

As incríveis múmias incas no Museo Inka, em Cusco

Incas una gran historia, 2023 p. 29. 

Os corpos mumificados faziam parte do cotidiano das famílias, eles eram conhecidos como mallquis e participavam das festas e procissões pelas ruas das cidades. Em comemorações religiosas, fogueiras cerimoniais eram acesas em frente à essas múmias, comida e bebida eram colocadas na sua frente. 

Em Quechua, Mallqui significa árvore, mas como também era usada para definir o ciclo da vida (nascimento, crescimento, reprodução, morte, regeneração), era usada quando os incas referiam-se aos ancestrais. 

Dibujo sobre fiesta de difuntos. Guamán Poma.


    Os governantes, após a mumificação, ​​se tornavam entidades e eram considerados um ser que exercia influência política no Estado Inca. Eles eram cuidados por mulheres e seus porta-vozes eram duas pessoas de gêneros diferentes, responsáveis ​​por comunicar seus desejos. 

 As fotografias a seguir foram feitas no Museo Inka, em Cusco, e reproduzem uma tumba e o culto aos ancestrais. 


Os mallquis eram corpos mumificados dos governantes incas. Cada Panaca, ou seja, pessoas de sua família, era por manter as obrigações que o antepassado assumia ao longo da vida, por isso, ofereciam banquetes e presentes à comunidade. A Panaca veneravam,  cuidavam e pediam conselhos aos mallquis.


Os incas acreditavam que os rituais os conectavam às forças da natureza. Para eles, os principais deuses como o Sol (Inti), a Lua (Quilla), as Estrelas (Chasca e Choquechinhay) e o Raio (Llapa) e eram os responsáveis por permitir a vida. 


No Império Inca - Tawantinsuyo, tudo o que era sagrado era chamado de Huaca: lugares, pessoas e objetos. O Inca, como filho do sol, ao morrer se tornava uma Huaca e, portanto, deveria ser adorado. 


Após a conquista espanhola, a maioria dos mallquis foram queimados, enquanto outros desapareceram, comprometendo uma importante parte da história inca. 


El Niño del plomo, uma múmia inca no Chile: escrevi sobre a múmia inca de um menino encontrado no alto das montanhas de Santiago, no Chile, aqui: https://aquisotemhistoria.blogspot.com/2023/01/uma-mumia-inca-no-chile-el-nino-del.html


Para saber mais: 



Referências:

Guamán Poma de Ayala, Felipe. Nueva Corónica y Buen Gobierno. Edición facsímil de la Biblioteca Nacional del Perú, 2014. 

Las Momias Incas O Mallquis: Poder Más Allá De La Vida:  https://www.andinoperutours.com/es/blog/las-momias-incas-o-mallquis/

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Museu da Inquisição em Lima - O Tribunal do Santo Ofício na América do Sul

O Museu da Inquisição em Lima fica no prédio onde funcionava o Congresso Nacional do Peru. Trata-se de um edifício histórico, patrimônio da humanidade, no centro da cidade. 
Ao chegarmos ao local, fomos informados que precisaríamos esperar pela visita guiada, não é permitido circular pelos espaços sem a presença de um guia. Os funcionários são muito cordiais e solícitos, todos mostraram-se surpresos, dizendo que recebem poucas visitas de brasileiros, o que certamente é uma pena, portanto, se você vai a Lima, o Museo  del Congresso y de la Inquisición é extremamente interessante. 

A Inquisição ou tribunal do Santo Ofício 

Após o fim das Cruzadas, o espírito cruzadista não cessou. A luta contra o infiel deixou de ser no Oriente, nas distantes paragens da Terra Santa, e voltaram-se para os inimigos da fé católica na Europa. 
A Reconquista, luta dos cristãos europeus para expulsar os islâmicos da Península Ibérica, durou séculos. Sob a liderança dos reis católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, a guerra santa assumiu caráter de Cruzada e guerra generalizada. Para levantar fundos para a empreita, houve a obrigatoriedade de conversão dos judeus ou o abandono de seus bens e exílio. Finalmente concretizada em 1492 com a conquista  de Granada, esse processo de unificação daria origem a uma das mais poderosas monarquias nacionais da Europa Moderna e sua máquina de perseguição aos não cristãos católicos.

A Inquisição no Peru: 

O Tribunal do Sano Ofício chegou ao Peru ainda no século XVI, em 1570, seu alcance era amplo, ao sul: Chile e Argentina e ao norte: Colômbia, Venezuela e ilhas do Caribe. Um vice-Reino tão rico precisaria da representantes da verdadeira fé, uma vez que atraia muitos cristãos-novos, a procura de um novo local para recomeçar fora da Europa.
O primeiro a ser julgado e condenado à fogueira foi um prisioneira francês, em 1573, acusado de professar a fé protestante.
Os índios, ou gentios, estavam isentos da Inquisição, era julgados "inocentes", uma vez que pouco sabiam do cristianismo e era objetivo da Companhia de Jesus converte-los, não amedronta-los (ironia a parte, como se a conversão em si já não fosse um ao bárbaro).
A maioria dos processados no primeiro século da Inquisição na América Espanhola eram portugueses, em geral, ricos comerciantes, acusados de práticas judaizares clandestinas. Logo após a acusação, seguia-se o confisco dos bens.
As tabelas abaixo foram retiradas do site do Museo del Congresso y de La Inquisición, é possível analisar a origem dos condenados e os crimes pelos quais eram acusados.


É possível notar o grande número de prisioneiros ingleses e acusações de protestantismo: "Como no México, os protestantes eram presa fácil - e menos vexaminosos que os padres lascivos. Entre os ingleses no auto de 30 de novembro de 1587, achava-se John Drake, primo de Sir Francis Drake. Depois de contornar o cabo Horn, o navio de Drake naufragara no Pacífico, ao largo da costa do que é hoje o Chile. Ele e um companheiros haviam subido as montanhas e depois descido de canoa até Buenos Aires. Ali, foram apurados e mandados de volta pelas montanhas de Lima. Em seu julgamento, Drake capitulou, converteu-se ao catolicismo e foi condenado a três anos em um mosteiro. (...) Prisioneiros ingleses voltaram a aparecer num auto de abril de 1592, e três foram condenados a morte." 
BAIGEN, Michel. LEIGH, Richard. A Inquisição; tradução: Marcos Santarrona; Rio de Janeiro: Editora Imago, 2001. p. 109 e 110.

Pátio interno, azulejos e mosaicos característicos de pátios internos Ibéricos - Patio Sevilla

Sala das Audiências: 


Vestíbulo de entrada - Tetos em Caixotão - madeira de lei trabalhada

Sala das Audiências: 

Cabia ao acusado de heresia se apresentar nessa sala ao Inquisidor, ao fiscal e o qualificador, esses três homens deveriam iniciar o interrogatório ou arquivar a denúncia e não dar prosseguimento ao processo.




A palavra de Deus ao lado dos instrumentos utilizados para obter a confissão


Celas subterrâneas

Claustrofóbicas e escuras, celas de prisioneiros
 


A Tortura: A Cámara de tormentos

Para os inquisidores, após cumprir-se as etapas preliminares, sendo a culpa comprovada, mas não confessada, a tortura era autorizada, pois as sentenças deveriam se basear na confissão do réu.  Estudos apontam que o maior período de utilização foi no século  XVI (http://www4.congreso.gob.pe/museo/procedimientos_juridicos.html). 
"O objeivo do inquisitor não era amar o herege. Toda fogueira era para ele um fracasso. Tratava-se de obter a confissão, que dava acesso à misericórdia infinita de Deus e reintegrava o suspeito na comunidade cristã". 
BEAUNE, Colette. Em nome de Deus. In: Revista História Viva, Ano I, n˚ 10. Educar Duetto. São Paulo, agosto de 2004.


 Instruments utilizados pelo Tribunal do Sano Ofício em Lima

Prática de tortura: El Potro - O acusado deitava-se nessa espécie de mesa, com seus membros atados por cordas, as quais eram sistematicamente apertadas e repuxadas para produzir dor e induzir a confissão. 



Caso o Potro não produzisse o resultado esperado, podia ser combinado à utilização da água, colocar-se um pano sobre a boca e nariz  do acusado, que permanecia imobilizado. Aos poucos derramava-se água, o que produzia a sensação desesperadora de afogamento. 


La Garrucha: Suspenso pelos punhos, nessa prática o peso do corpo era o principal inimigo do prisioneiro, pois ao ser suspenso, toda a pressão se encontrava em sua articulação. A queda era violenta, no entanto, as cordas o impossibilitavam de ocar o chão, o que aliviaria, mesmo que rapidamente, a pressão. Em alguns casos, poderia ser acrescentado pesos nos tornozelos dos acusados. 




Vale destacar que, ao contrário do que muitos pensam, o Tribunal do Santo Ofício não condenava imediatamente ninguém a morte, todos passavam pelo julgamento, claro que, dentro dos padrões de justiça que a Igreja Católica julgava justa nos séculos XVII, XVIII e XIX. 
Segundo Martin Monster: "Queimar o herético não significava apenas elimina-lo, mas também reduzir a nada a lembrança de seu crime contra Deus e a fé. A imaginação dos juízes na execução dos castigos não tinha limites. 


Auto de fé em Lima - triste imaginar essa praça tão linda sendo palco dos Autos de fé


Os Autos de fé eram os momentos em que as sentenças vinham a público, não necessariamente terminando na temida fogueira. 
"A procissão do auto-de-fé era realizada com grande pompa. Participavam do cortejo, além dos condenados, as autoridades civis e religiosas, os soldados e os carvoeiros, já que eram estes que forneciam a madeira utilizada na construção das fogueiras. A sentença era lida em uma igreja toda decorada de negro ou, mais frequentemente, no próprio local em que seriam realizavam as execuções. Em certos momentos, o inquisidor interrompia a leitura do ao de acusação para recitar os atos de fé. É esta a origem do nome dado a esta macabra cerimônia".
PEREZ, Joseph. A fúria espanhola. In: Revista História Viva, Ano I, n˚ 10. Educar Duetto. São Paulo, agosto de 2004. 



Vestimenta dos Infiéis: réu vestido como Sanbenito, vestimenta que o classificava como pecador, o raje variava de acordo com o delito cometido. "A túnica, que trazia um escapulário amarelo e uma cruz em forma de X, era destinada aos heróicos que se arrependiam antes do julgamento. Os que se arrependiam logo depois eram estrangulados antes de ser queimados".
PEREZ, Joseph. A fúria espanhola. In: Revista História Viva, Ano I, n˚ 10. Educar Duetto. São Paulo, agosto de 2004. 


Bibliografia

BAIGEN, Michel. LEIGH, Richard. A Inquisição; tradução: Marcos Santarrona; Rio de Janeiro: Editora Imago, 2001. p. 109 e 110.
Revista História Viva, Ano I, n˚ 10. Educar Duetto. São Paulo, agosto de 2004. 
Procedimentos jurídicos del Tribunal de la Inquisición. In:http://www4.congreso.gob.pe/museo/procedimientos_juridicos.html

Para saber mais


Museo del Congresso y de la Inquisición
Av. Abancay s/n. Cercado de Lima
Fone: 311-7777
http://www4.congreso.gob.pe/museo/index.html

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Peru: Lima - a chegada à cidade

Este post foi planejado há bastante tempo, mas a correria não me permitiu articula-lo como eu desejava. 
Viajar para o Peru era meu sonho desde que estava no Fundamental II, viajava nas aulas de História, que para mim eram tão cheias de magia e encantamentos... 
Me lembro que quando estava no 9˚ano fiz uma pesquisa na Feira de Ciências anual do Colégio que estudava sobre as civilizações pré-Colombianas, dados os recursos da época, lembro que ficou muito bonita! 
Mas os preços e as prioridades sempre fizeram com que esse destino estivesse em segundo plano. Quando, enfim, a oportunidade apareceu, as pesquisas começaram e o roteiro começou a ser planejado com muito cuidado e capricho. O problema é o mesmo de sempre: quero ver tudo e o tempo é curto! 
Começaríamos por Lima, uma vez que não é possível voar direto para Cusco. Fiquei maravilhada com as oportunidades que a capital oferece, além claro, de todas as suas peculiaridades como ser a única capital da América do Sul localizada no litoral, museus e sítios arqueológicos e os excelentes restaurantes. 
Ao chegar ao aeroporto Jorge Chaves, muito bonito e organizado, com atendentes simpáticos e prestativos, um susto: há muitos policiais e cães farejadores a procura de drogas e outros produtos ilícitos. Nossa mala foi parada, o cachorro estava alucinado. Ricardo abriu e, claro, o policial não achou nada, mas o cachorro estava mesmo muito irritado... seria um cheirinho de Mingau, nosso gato fofo? Sim, depois me lembrei que enquanto eu preparava aquela mala ele tinha entrado por ali e se esfregado todinho... 
O aeroporto fica a uns 30 minutos de Miraflores, bairro que escolhemos para ficar. O trânsito é caótico e barulhento e a frota, em geral, é velha. Foi um longo percurso pelo litoral, nosso primeiro contato com o Pacífico. 
O que primeiro chama a atenção são os paredões imensos que separam a cidade da praia. O guia nos explicou serem paredões artificiais, de contenção e proteção da cidade em caso de terremotos e tsunamis.

Incrível vista do Oceano Pacífico a partir do shopping Larcomar
A praia também é artificial. 

A primeira refeição foi na praça de alimentação do shopping Larcomar, com um vento gelado que vinha do Pacífico, mas não menos deliciosa: comemos vários tipos de ceviches e arroz com polvo. O sabor era ainda melhor do que os que havíamos experimentado aqui no Brasil. Pedimos um combinado de ceviche caliente, com o peixe empanado e frito, mas com o leite de tigre, como no tradicional, e vários outros mais "exóticos" de frutos do mar e molho agridoce. Achei tudo lindo e delicioso! 
 A Clara experimentou e amou a Inca Cola, refrigerante tradicional do Peru, com uma cor amarela que lembra detergente, mas é doce com xarope, eu a Chicha, bebida a base de milho roxo e especiarias, que achei muito saborosa (e, felizmente, não mais preparada como na época dos incas)
Nessa imagem tentei organizar um pouco de tudo o que comemos de diferente: ceviches (quente e tradicional), empanadas (deliciosas tanto as doces quanto as salgadas!), sanduíches vegetarianos com abacates em Aguas Calientes, risoto de quinoa (maravilhoso!) e o filé de Alpaca (com gosto muito forte, mas achei bem gostoso).
A apresentação dos alimentos é linda, os legumes e grãos são enormes. Fiquei impressionada com o tamanho e cores dos diferentes tipos de milho e ervilha que encontramos. 

Já no City Tour, Ana Clara comprou mais uma Inca Kola, ficou fã!

Durante o City Tour, estava empolgada e ansiosa para ver tudo o que eu havia lido e pesquisado sobre o centro de Lima, a agência de viagem que contratamos, a Viajes Pacífico, foi excelente em tudo.