Aqui só tem História

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sábado, 15 de julho de 2017

O Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal

Um dos locais mais sensacionais de minha visita a Portugal foi, sem qualquer sombra de dúvidas, o Castelo dos Mouros, em Sintra, que é Patrimônio da Humanidade. 
Os castelos povoam nosso imaginário e o meu, como historiadora, ainda mais. No entanto, esse é um castelo peculiar, diferente dos outros que visitei, mais que apenas uma fortaleza, englobava toda uma cidadela e não era inicialmente reduto de cristãos, mas sim de islâmicos. 
Construído no século VIII, no alto da montanha que os romanos denominaram Monte da Lua (Mons Lunae) possibilitava vista privilegiada de toda a região, inclusive até a costa do Atlântico. 
Durante a conquista islâmica da Península Ibérica, essa magnífica construção garantia os domínios na região que ligava o Atlântico ao delta do rio Tejo, sendo considerada uma das oito mais importantes estruturas militares do Andalus (nome das posses ibéricas dos islâmicos). 

Vista do Castelo dos Mouros a partir do Palácio da Pena

Vista de Sintra a partir do Castelo dos Mouros, no horizonte o oceano Atlântico

Maquete representativa do Monte da Lua, destaque para as muitas rochas graníticas da região. 

Representação gráfica de toda a extensão do castelo - mapa distribuído aos turistas



Chegamos ao Castelo vindos do Palácio da Pena, pela chamada calçada da Pena. É possível visitar toda a parte externa das muralhas sem que seja necessário adquirir os ingressos, paga-se para visitar apenas o interior da fortificação. 

                                    
Antes da entrada ainda, o visitante depara-se com a necrópole cristã, há exemplos de sepultamentos e as escavações arqueológicas demonstraram que o exterior das muralhas serviu como cemitério durante, aproximadamente, 300 anos. Há sepultamentos de adultos, crianças e também adolescentes, demonstrando que não eram só soldados que habitavam o local. 
Um aspecto interessante acerca da idade da necrópole refere-se à moedas encontradas junto as ossadas, demonstrando a permanência de valores antigos ligados ao pagamento do barqueiro pela viagem ao além. 

                                    

                                    
Exemplo de moedas encontradas nos sepultamentos (enterramentos) expostas no interior da igreja de São Pedro de Caneferrim. 
                           


A necrópole cristã em funcionamento durante os séculos XII ao XIV fundamentou-se sobre o antigo bairro medieval islâmico. 


Igreja de São Pedro de Canaferrim





Logo após a entrada, localiza-se a antiga igreja de São Pedro de Canaferrim, de arquitetura românica, as espessas paredes de granito não abrigam mais um templo religioso, mas sim o centro que oferece informações históricas aos visitantes. 
Vale a pena assistir o vídeo todo, as ilustrações realizadas para ilustrar a narrativa são realmente primorosas


                  


Artefatos e vestígios da vida cotidiana durante a ocupação muçulmana provenientes da escavação arqueológica realizada no local em 2012.






Mapa em madeira com as representações espaciais de ocupação islâmica e cristã

Praça de armas 

Após a conquista cristã, o  Castelo foi alterado e suas muralhas passam a ter o formato que vemos hoje apresentando duas linhas (cinturas) contínuas de muralhas, a interior possui 6 torres principais, além da Alcobaça onde está a Torre de Menagem, as antigas cavalarias, além das cisternas. 
A muralha exterior é a que possui as duas portas que fazem ligação com a Calçada da Pena e o acesso pedestre ao centro histórico de Sintra. 
                                       
                                       
Em caracteres árabes, Sintra - bandeira para simbolizar a origem do castelo
                                       

                                        

Após a conquista cristã, por Afonso Henriques em 1147, o Castelo dos Mouros passou a representar um importante posto militar da Reconquista cristã na Península Ibérica, sendo doado a Ordem dos Cavaleiros do Templo em 1154. 
Os cristãos realizaram reformas na estrutura islâmica, o objetivo era claro: impressionar os inimigos e garantir a defesa dos territórios conquistados (ou retomados/reconquistados...). 

                                        
Bandeira representativa do escudo de armas do rei Manuel I

                                        
Bandeiras representativas de D. Afonso Henriques (1143) e D. Sancho I (1185), respectivamente
                                        

                                                 
É possível caminhar por praticamente todo o perímetro das muralhas pelo denominado Caminho da Guarda





A Alcáçova - local onde residiam as autoridades locais - também faz parte do conjunto a Torre de Menagem. 
Toda a estrutura sofreu modificações a partir da conquista cristã. 



Silos

Em vários locais no interior das muralhas o visitante depara-se com esses buracos no chão, são as bases dos antigos silos, ou seja, locais destinados ao armazenamento de alimentos. Essa prática de armazenagem foi amplamente difundida pelos islâmicos em todas as áreas por eles conquistadas, dessa forma,  Andaluz não seria excessão. De acordo com informações historiográficas contidas em tratados árabes sobre a conservação de alimentos, os silos deveriam estar, preferencialmente, no interior das casas, devendo estar devidamente vedado, impedindo a circulação de oxigênio e, consequentemente, a decomposição dos alimentos. 






Cisternas 




Chaminé de circulação da cisterna vista de baixo



Construídas por volta do século XIII com capacidade de armazenamento de 600 metros3 de água, garantia que, em caso de cerco, a população pudesse subsistir durante muito tempo. 
O teto é abobadado e a estrutura possui duas chaminés de ventilação. 

O tempo e o Castelo dos Mouros


O tempo é um inimigo implacável! 
Alvo de contínuas disputas entre cristãos e islâmicos, remodelações para melhor atender os aspectos ligados a defesa e resistência em caso de cerco, o castelo funcionou como vila até meados do século XV quando a Reconquista se efetiva completamente. Não necessitando de proteção, as pessoas abandonaram o local. 
O Castelo foi severamente atingido pelo terremoto de 1755.
No século XIX, o rei consorte D. Fernando, um artista e romântico, viu nas ruínas sua fonte de inspiração e sua imagem idealizada da Idade Média. Foram empreendidas obras de restauro livres, seguindo aos anseios do rei, transformando-se em uma ruína romântica e passando a integrar-se ao Parque da Pena, local onde o rei-artista construiu um palácio.

Palácio da Pena visto a partir do Castelo dos Mouros

Cronologia: 

Século VIII: Conquista islâmica da Península Ibérica - território por eles denominado de Al-Andalus.
Século X: Construção e fundação do castelo, que se coloca como dependente do califado de Córdoba.
Séculos XI ao XII: ocupação do bairro islâmico medieval (hoje área de ocupação arqueológica).
Século XII - 1109: Sigurd, rei da Noruega, a caminho da II Cruzada, visita o castelo. 
Século XII - 1147: Após a conquista de Lisboa, o rei Afonso Henriques conquista Sintra e o Castelo dos Mouros. 
Século XIX - 1839: O rei consorte D. Fernando II realiza obras de restauro, em estilo livre e romântico nas ruínas. 
Século XX - 1995: Patrimônio da Humanidade

Fontes: 

Castelo dos Mouros - Parques de Cintra - Guia de Visita 
Scala Arts & Heritage Publishers Ltd,1 edição, 2016. Espanha.

Para saber mais: 


Custos e Horários: 


Adultos: 8 Euros
Até 17 anos: 6.5 Euros

Das 9:30 às 20:00

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O Museu do Sambaqui em Joinville

Trabalhar com a temática dos primeiros habitantes do Brasil sempre me provoca muita curiosidade, assim como nos alunos, que sentem-se motivados e instigados, no entanto, as fontes historiográficas, bem como mais informações ou sugestões de atividade extras são escassas. 

Por isso, a viagem de férias com minha família para Florianópolis ficou ainda mais atrativa, uma vez que passaríamos por Joinville, onde está o museu do Sambaqui. https://fundacaocultural.joinville.sc.gov.br/conteudo/10-MASJ+-+Museu+de+Sambaqui.html e a costa do litoral catarinense conta com vastos sítios arqueológicos e de pesquisa referentes a esse tipo de ocupação. 

Mas afinal, o que são os sambaquis? 




Sambaquis (do tupi: monte de conchas) são sítios arqueológicos formados por vestígios materiais da presença humana, conchas e moluscos, areia e outros vestígios materiais como instrumentos de pesca, ferramentas e adornos, deixados por comunidades que viveram na região há milhares de anos. 
Esses homens e mulheres se alimentavam da fauna marinha abundante da região. Escolhiam um local elevado próximo à enseada e que tivesse água doce por perto. Com água doce e alimentos em abundância, não precisavam buscar alimentos em outros locais, eram pescadores-coletores sedentários. 
Aos poucos, formavam montes, onde depositavam tudo o que sobrava da alimentação, além de enterrar seus mortos e a eles render homenagens. A junção de todo esse material formava morros, que em alguns casos, como o Sambaqui de Figueira, em Santa Catarina, atingia 30 metros.

                         



                             

Infográfico Revista Nova Escola: Reconstituição do que deve ter sido um sambaqui



O Museu do Sambaqui de Santa Catarina


Bastante fácil em localizar, bem no centro da cidade, conta com estacionamento gratuito no local. 
As funcionárias são muito simpáticas e atenciosas, uma pena não oferecerem, contudo, visita guiada. 
O acervo do Museu, ou MASJ, conta com mais de 45 mil peças. A exposição é autoexplicativa, com vários banners colocados ao lado das peças, que vão desde esqueletos humanos completos, em estado de sepultamento, até pequenos fragmentos e conchas, transformadas em utensílios. 


Bloco representando as diversas "camadas" de um sítio arqueológico de Sambaqui.  Os vestígios mais antigos encontrados na região  datam de até 5 mil anos. 

Gostei muito dessa maquete reconstruindo a ocupação dos espaços que seriam os sambaquis, eles a posicionaram sobre conchas e areia, simulando as camadas dos sítios arqueológicos. 




Objetos de Pedra - Líticos

Os objetos em exposição foram retirados de sítios arqueológicos de Santa Catarina e Paraná e são obras de grupos de caçadores-coletores, pescadores-coletores e também agricultores. É muito interessante observar as diversas técnicas de polimento ou lascamento dos objetos, e mesmo levantar possibilidades quanto à suas funções: moer, cortar, raspar, furar.









Zoólitos: Objetos de pedra polida, possuíam funções estéticas, eram adornos. Muito bem elaborados, mostram a habilidade dos artesãos que os produziram. 




Zoólito: Ave marinha

Adornos: colares e demais objetos feitos de conchas ou pequenos moluscos. 




Os materiais confeccionados em fibras vegetais (em geral, taquaras e gramínea) e coloridas com pigmentos a base de frutas e cascas de árvores,  possuem características específicas que possibilitam sua relação com diferentes matrizes iconográficas, conferindo identidade e preservação das tradições. 



A conservação dos vestígios arqueológicos provenientes de fibras vegetais foi possível graças às condições favoráveis do solo, combinadas às condições químicas da madeira. No museu os materiais passam por 48 horas em FAA e após, é conservados em álcool 70%. 

Cerâmica: 


Utilizada para as mais variadas finalidades, desde armazenamento até decorativas ou mesmo urnas funerárias, as cerâmicas produzidas pelos grupos indígenas no Brasil, assim como os materiais confeccionados em fibras vegetais, segue a padronagem cultural de cada agrupamento. 




Detalhes que me chamaram a atenção: Cachimbos localizados em sítios arqueológicos feitos de cerâmica e esses vasos etnográficos, em especial, o vaso que está em destaque, todo decorado com estrelas do mar são exemplos do domínio do manejo da cerâmica. 



Técnicas passadas de geração em geração e a preservação do conhecimento milenar. 

A Fauna 

Diversos elementos foram utilizados pelos homens e mulheres dos sambaquis para a confecção de artefatos, tais como: conchas de moluscos, vértebras de tubarões, dentes de porcos e macacos, ossos de mamíferos,  que se transformaram em pontas de projéteis, esculturas, adornos corporais, anzóis, agulhas... 






Objetos feitos com presas de grandes animais, como onças, baleias e tubarões, nos permite concluir que os habitantes dos sambaquis eram exímios e corajosos caçadores, além de brilhantes e habilidosos artesãos. 

Os sepultamentos 


Os habitantes dos sambaquis eram, em geral, de estatura baixa, porém fortes devido a atividade física frequente, principalmente a pesca e cabeça volumosa, os inúmeros sepultamentos localizados nesses sítios permitem o estudo e a reconstituição física desses primeiros brasileiros.


Há um convênio entre o Museu do sambaqui e as escolas locais, eles disponibilizam materiais  como esse sepultamento humano de 5 mil anos e outros vestígios que podem ser estudados e manuseados pelos alunos das escolas da região. Imagino como deve ser enriquecedor para os professores e alunos poder contar com esse material adicional, ação essa que, além de tudo, favorece a preservação e conscientização acerca desse tão rico patrimônio material e histórico. 


Para Saber mais: 

GUARINELLO, Norberto Luiz. Os primeiros habitantes do Brasil; Ilustração: Cecília Iwashita. São Paulo: Atual, 1994. (Coleção a vida no tempo do índio).

Site Mirim Povos indígenas do Brasil: https://mirim.org/antes-de-cabral/ocupacao-brasil
Revista Mundo Estranho: O que são sambaquis? http://mundoestranho.abril.com.br/ambiente/o-que-sao-sambaquis/