Aqui só tem História

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domingo, 11 de agosto de 2024

York Castle Museum: uma viagem a York de outros tempos

    O York Castle Museum teve início a partir da coleção de um médico, o Dr John Kirk, um ávido colecionador que desejava preservar o modo de vida da Era Vitoriana por meio de itens do cotidiano. Muitas vezes, o Dr. Kirk aceitava os objetos que hoje estão expostos como forma de pagamento pelas consultas médicas. 
     O espaço mais incrível do museu foi batizado em homenagem ao Dr. Kirk: Kirkgate, a rua vitoriana. 

    

        
    O museu foi inaugurado em 1938, mas o edifício é muito mais antigo. Ele foi construído em 1780 para expandir a superlotada prisão de York. 
     

The Period Rooms - Salas de diferentes períodos

    A visita a esses espaços nos possibilita visualizar como as pessoas viviam entre os séculos XVII e XIX. Cada um dos quatro espaços - para cada respectivo século, é como uma janela que possibilita uma viagem no tempo, há um trecho explicativo, como a folha de um diário, onde uma mulher descreve o ambiente de acordo com as características de cada época. Eu os traduzi a seguir.  


Diário de uma senhora do século XVII, março de 1698


    Ouvi dizer que há quase 13.000 pessoas morando em York agora. Tantas pessoas! É difícil acreditar que a cidade viu cinco surtos de peste e uma Guerra Civil em pouco mais de 100 anos, mas felizmente ela se recuperou e agora está florescendo. York é um importante porto interior, com mercadorias sendo enviadas de e para cidades de todo o país.


     Imagino o que meus ancestrais fariam com tudo isso. Nossa casa é certamente diferente do que minha bisavó teria conhecido. Não compartilhamos mais nossas refeições com os empregados em um salão comunitário. Nossa nova chaminé de tijolos significa que a lareira não precisa ficar no centro da sala, e temos dois andares! Nossa sala de jantar tem alguns dos melhores painéis e móveis de carvalho de Yorkshire. O berço de Thomas e o baú que me deram no dia do meu casamento são tão lindamente esculpidos. O mais emocionante é que temos canos de madeira que nos fornecem água fresca do Ouse (o rio que atravessa York)!




Diário de uma senhora georgiana, junho de 1780


    Ouvi dizer que nossos vizinhos estão construindo uma casa nova e contratando o famoso arquiteto John Carr para projetá-la. Imagine isso. Nossa casa não foi construída por ninguém famoso, mas o desenho do quarto tem lindos painéis de pinho e um carpete - que luxo! Nosso pintor garante que ela é pintada com uma cor de muito bom gosto e que nossas cadeiras têm os designs mais atualizados do guia de marceneiros e estofadores da Hepplewhite. 


    Com York se tornando um centro social, é muito importante acertar as coisas. James insistiu em instalar uma figura pintada na sala de estar. Ele diz que se chama companheiro silencioso ou prancha falsa e manterá os ladrões afastados. Certamente é uma decoração interessante. Ele pode ficar de olho nos talheres e no meu adorável cravo também - é feito por Thomas Haxby que faz os melhores instrumentos musicais de York, eu adoro tocá-los.


Diário de uma Mulher moorland (que vive na charneca), outubro de 1850

A porta da casa por Henry Bright, 1864

    A vida nas charnecas (Moorland) é um trabalho árduo. Eu, John e nossos três pequeninos ocupamos todos o mesmo quarto. Suponho que não posso reclamar, temos tudo o que precisamos, o que é mais do que alguns podem ter. 
    Nossa cama é boa e sólida. Está na minha família há anos e tivemos sorte de ter sido passado para nós junto com outros móveis. Comprei alguns enfeites e algumas fotos. Não são nada sofisticados, mas acho que alegram o lugar.



    Pode ser solitário aqui, mas ter a bola da bruxa na janela para afastar qualquer mal me faz sentir melhor. Devo me lembrar de verificar quanta turfa nos resta. Se não mantivermos o fogo aceso não teremos comida ou água quente ou água quente.         Meu John diz que metade da população do país vive agora em cidades e o nosso modo de vida provavelmente não existirá por muito mais tempo. Eu me pergunto se ele está certo.


Kirkgate - 1870 - 1901

  • A rainha Vitória ocupava o trono. O Império Britânico ocupava 1/4 do planeta.
  • York cresceu muito à medida que pessoas abandonaram o campo em busca de melhores condições de vida nos centros urbanos. 
  • Os maiores empregadores da cidade eram as ferrovias e as indústrias têxteis. 
  • 1/3 da população vivia na pobreza. A superlotação, a má saúde e a dieta das moradias operárias na cidade eram similares às de Londres. 
  • Mais adultos se tornaram alfabetizados. Os homens tinham direito ao voto, mas as mulheres eram excluídas. 
  • Todas as crianças podiam ir à escola gratuitamente, embora as crianças pobres precisassem trabalhar para complementar a renda familiar. 

Diário de uma senhora vitoriana, maio de 1872


    Já se passaram quase três meses desde que nos mudamos para cá. Diverti-me muito decorando a sala, o melhor cômodo da nossa casa. A produção industrial em massa tornou alguns luxos acessíveis para nós e enchi a sala com móveis da moda, ornamentos e todo tipo de bugigangas. Charles diz que parece um pouco lotado, mas isso é moda agora.



  Só podemos pagar uma criada, uma empregada doméstica para todos os trabalhos. Ela tem apenas 15 anos, mas se sai bem com todo o trabalho pesado. 
  York está crescendo rapidamente. Ouvi dizer que há mais de 50.000 pessoas na cidade. Estou tão feliz por vivermos em subúrbios arborizados onde o ar é bom. Nossos vizinhos são médicos e banqueiros – todos pessoas muito gentis. 
   Na semana passada levei uma cesta de caridade para os pobres que vivem perto do centro da cidade. Tanta pobreza e superlotação em Walmgate, Groves e Clementhorpe. É tão triste que algumas pessoas não possam trabalhar por causa de acidentes ou doenças.

Kirkgate, a rua coberta mais antiga do gênero no Reino Unido

  Kirkgate deve o seu nome ao fundador do museu, Dr. Kirk – ele era um médico com um profundo interesse no passado e queria proporcionar aos visitantes a experiência de voltar no tempo. 
    Os objetos que formam a rua, desde os postes de luz até os cochos dos cavalos, são itens originais do período vitoriano e anteriores, até as carruagens são originais, assim como quase todas as vitrines das lojas. 




    Como uma rua real, Kirkgate é composta por construções de diferentes épocas. O mais antigo é o grande edifício com estrutura de madeira que abriga a loja de doces Barton's, mas foi originalmente construído em Stamford, Lincolnshire, no século XVI e, na década de 1930, foi desmontado e reconstruído aqui como parte do museu.





     Todas as lojas de Kirkgate são baseadas em lojas e negócios reais que funcionaram em York entre 1870 e 1901. Esta foi uma época em que a cidade já era um destino turístico, conhecida pelas suas obras ferroviárias e fábricas de confeitaria.









    A loja de brinquedos é repleta de jogos, animais de madeira, soldadinhos, bonecas, ursos e presentes das décadas finais do século XIX.


    Essa loja está repleta de artigos de luxo, brinquedos, instrumentos musicais e jóias vindas da China. No final do século XIX, eram conhecidas como Bazares. 
    Os pais viam os brinquedos como estratégias para a educação dos filhos. Às meninas, bonecas, louças e outros objetos de uso domésticos, já para os meninos, microscópios, soldados e outras novidades tecnológicas. 




    No entanto, apesar de toda riqueza e das lojas repletas de luxos, York também reunia áreas de extrema pobreza. 
    Relatórios do início do século XX, demonstram que as condições nas moradias operárias de York eram ainda mais precárias do que as de Londres. 



Nos fundos de Kirkgate, você pode visitar Rowntree Snicket, que abriga o Poor Dwelling e o Candlemaker's. Cartazes de propaganda desbotados e surrados estão espalhados por todo o  lugar. 



   No final do século XIX, muitas famílias viviam amontoadas em casas de um único cômodo, sem cozinha, banheiro ou água encanada. 
    Rowntree Snicket recebeu o nome de Seebohm Rowntree, que fez um relatório sobre a pobreza em York. As reconstituições da casa operária e do beco, o Snicket e o Poor Dwelling são baseados nas descrições dessa equipe.


    Ao adentrar o beco, há o som do bebê chorando, a iluminação torna-se mais fraca, as paredes rachadas e úmidas, os tijolos estão expostos. 


     Em uma das portas é possível adentrar uma dessas moradias. É dali que vem o choro incessante do bebê. Há ainda uma cama estreita e baixa, uma mesa com os restos de uma refeição e uma cópia de um jornal, provavelmente para alimentar a lareira/fogão. 




 Negócios desagradáveis ​como a produção das velas e outros perigosos ficavam desse lado - o lado pobre - da cidade. 


    Fazer velas era um negócio terrivelmente mau cheiroso - as mais baratas eram feitas de sebo,  gordura animal derretida 🤢. 
   

    Ao serem acesas, as elas exalavam o mesmo mal cheiro, porém eram mais baratas e foram largamente utilizadas pelos mais pobres ao longo do século XIX. 


    Uma fábrica como a representada em Kirkgate poderia produzir até 7 mil velas por dia e empregava jovens meninos como aprendizes, já que eles recebiam 1/4 do salário de um homem adulto, além de trabalharem muitas horas em condições arriscadas. 


Nessa área também fica a funerária Rymer. A sala em que está localizada no museu costumava ser, nos primeiros dias da antiga prisão de York, "The Drop", o lugar onde os prisioneiros condenados esperavam antes de serem levados para a forca.


    


Século XIX: operários das fábricas entre 9 e 11 anos

Se você fosse uma criança ou um adolescente pobre no século XIX, a vida seria difícil. 
Seria necessário trabalhar entre 14 e 18 horas diárias para receber um salário miserável, mas essencial para ajudar na sobrevivência de sua família. 
Muitas crianças eram contratadas para limpar embaixo das máquinas enquanto elas estavam funcionando 😮, o que ocasionava, obviamente, muitos acidentes. Havia riscos de, ao prender os dedos, perder a mão 😨. 
Não havia leis ou proteção aos trabalhadores, nem para as crianças. 

Regulamentação infantil na Inglaterra 

1. Em 1833, a Lei da Fábrica de 1833 proibiu crianças menores de nove anos de trabalhar nesses espaços. 
2. Em 1840, a Lei de Regulamentação de Varredores de chaminés proibiu o trabalho de crianças, que antes escalavam as construções para desobstruir os dutos. 
3. A partir de 1880, o Forster Elementary Act, estabeleceu que entre 5 e 10 anos, as crianças deveriam ir à escola. 
4. Finalmente, em 1893, a Lei de Educação Primária de Frequência Escolar estabeleceu que crianças deveriam frequentar a escola até os treze anos. 



Século XXI: crianças e adolescentes estudantes

Hoje, felizmente, as crianças e adolescentes ingleses são protegidos pela lei - assim como no Brasil- devem estudar e se desenvolver de forma plena. Qualquer atividade que comprometa a saúde, a segurança ou a educação é proibida 🚫. 

Para saber mais: https://www.yorkcastlemuseum.org.uk/

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Museu Judaíco em São Paulo

O prédio

    Projetado pelo arquiteto Samuel Roder, o Museu Judaico de São Paulo (MUJ) ocupa o prédio do templo Beth El, no bairro Bela Vista.

Na fachada, lê-se: “Que esta seja a casa de oração para todos os povos

             
    Entre 1932 a 2010, o espaço foi a sinagoga da comunidade Beth El, frequentadas por judeus imigrantes, vindos do Leste Europeu, sobretudo no período Entreguerras (1919-1945). Ali, gerações celebraram seus ritos sagrados. 

    O Museu abriga o maior acervo judaico da América Latina e possibilita ao visitante conhecer a diversidade de expressões, histórias, tradições e memórias judaicas e a coexistência pacífica entre diversos grupos sociais.  


    Ali, a memória é um fenômeno vivo, fonte de resistência e em permanente transformação.


No teto, fotografias individuais ou de famílias ajudam o visitante a imaginar quantas histórias e memórias fazem parte da trajetória dessas pessoas ao longo dos séculos XX e XXI. 



Fontes históricas e a preservação da memória

Os mais de 4000 objetos possibilitam ao visitante analisar fontes históricas, como um detetive do passado, um historiador que interroga os objetos em exposição, são fontes: 
  • materiais, como brinquedos, roupas, adornos (joias, relógios). 
  • visuais: fotografias, mapas, gravuras, pinturas. 
  • textuais: livros e documentos. 
  • sonoros e visuais: filmes e gravações. 

Fontes históricas rituais

O calendário


    O calendário judaico é lunissolar, ou seja, considera tanto os ciclos solares quanto lunares. A contagem do ano é feita a partir da crença da criação do primeiro homem e da primeira mulher por Deus.
Para os judeus, o ano 2024 corresponde ao ano 5784 ou 5785 depois que Deus criou o mundo. 

Torá - É a bíblia hebraica. É escrita à mão com tinta especial e pergaminho especiais. Ali estão as regras e crenças do judaísmo. 

Menorá em bronze - objeto ritual religioso


    Candelabro de sete braços (83,5 cm. de altura): O acervo conta com menorot (plural) de diferentes épocas. 

Mesa do Sêder (Ordem)


    É o jantar festivo em que o povo judeu relembra – por meio da alimentação, da leitura e de canções – as fases de sua libertação do Egito. 


Relato de Esther (Meguilat Ester)

    Feito em Veneza, Itália, século XVIII. Escrito em hebraico e ilustrado com desenhos e aquarela;



    O Pergaminho narra a história da rainha da Pérsia, Esther e da tentativa de extermínio do povo judeu que vivia nesse território. 

    A Meguilá é o livro lido durante a festa de Purim e no seu pergaminho está descrita história da Rainha Esther na Pérsia, a história da festa judaica de Purim que conta tentativa de extermínio do povo judeu na Pérsia antiga durante este reinado. com suporte de marfim torneada com anéis e pergaminho com manuscritos. 


    Além da leitura dessa história, no Purim se celebra a vitória do povo judeu em seguir sua fé, todos ficam alegres, fazem brincadeiras, enviam comidas à família e amigos e também aos necessitados. 

Escultura: Dois velhos indo para a Sinagoga (1939). 

    homem leva uma bengala e um talit - um acessório religioso em forma de um xale feito de seda, lã ou linho, com as tsitsiot (franjas). Ele é usado como uma cobertura na hora das preces, principalmente na oração de Shacharit (feitas pela manhã). As franjas funcionam como lembrete dos 613 mandamentos do judaísmo. Já a mulher carrega um livro com uma estrela de David na mão esquerda. 

Rosh Hashaná (Cabeça do Ano)

    O ano novo judaico, Rosh Hashaná, é comemorado durante dois dias e celebra a criação do primeiro homem e da primeira mulher. 

    No Museu há inúmeros cartões de felicitações para o novo de diferentes épocas do século XX. 


  • O que costuma-se desejar para a família e os amigos no Ano Novo? 


Boneca de uma jovem mulher rezando na mesa de Shabat (dia sagrado de descanso)

    Na mesa, há um livro de rezas e uma chalá, o pão especial que se come no shabat. Ela pertenceu a Marcus Fisher que, antes da Primeira Guerra Mundial, levou-a consigo quando imigrou para Buenos Aires e, posteriormente, quando veio para o Brasil. 

Fotografias e vestimentas

Vestimentas de casamento, início do século XX


    Foto de Rosinha Brauer Cupersmidt no dia de seu casamento na sinagoga Beth El (que hoje é o Museu) em 1952. O vestido usado por ela encontra-se no acervo do museu. 


Fotografias da exposição de Marcelo Brodsky (fotógrafo argentino)

Família de Marcelo Brodsky, sua avó está destacada no centro da imagem, 1911.

  • O que teria levado essa família a imigrar, vindos da Rússia, para um país tão distante e culturalmente diferente como a Argentina? 
  • Quais esperanças traziam consigo? 
  • O que é possível perceber sobre as relações familiares ao analisar as fotografias? 

    Família de Marcelo Brodsky, nessa fotografia, de 1911, sua avó Rosa 1911 está ao lado do irmão. 


Lembrar e não esquecer

    O dia 6 de maio é Yom HaShoá, o "Dia da Lembrança do Holocausto".  A exposição Lembrar e não esquecer descreve esse período terrível da história do povo judeu por meio de diversas fontes históricas: 


Os objetos em exposição revelam informações sobre a vida daqueles que os possuíam. 




    Segundo o MUJ, na Alemanha, a partir da chegada do partido nazista ao poder, a Estrela de Davi amarela deveria, obrigatoriamente, ser usada pelos judeus em público para diferenciá-los - e humilhá-los, em relação ao restante da população.



Passaporte alemão de Elly SARA Bukofzer. Para identificar as mulheres judias, Sara foi incluído ao nome. 

  • Em que cidade o documento foi expedido? Quando? O que ela representava para o Estado Nazista? 
  • Por que as mulheres judias tinham seus nomes alterados? 
  • Como se sentiam?

Para explorar outros passaportes que fazem parte do acervo do museu, acesse:https://museujudaico.inwebonline.net/resultado.aspx?ns=216000&pesquisa=174148173102099029178169182128096096222089225206&tipopesquisa=045023100197142086096084061115242135035161033191&designacaopesquisa=028192150087144041122088030061151096016187041227&refazPesquisa=sim&modo=album&lang=PO&IPR=145&order=2501&by=asc&pageIndex=1#div_objecto_selecionado


                            Diário de Lori Dublon: registro da perseguição nazista


Esses objetos levam o visitante a refletir sobre como era a vida daquelas pessoas que os utilizaram: 
  • O que Lori escreveu em seu diário?
  • Quem era e o que sonhava a menina dona da boneca? 
  • Como chamava essa sua filhinha? 



Conheça a história de Ruth Sprung: https://www.facebook.com/reel/7322016994563115

Explore outros brinquedos do acervo do Museu, acesse: https://museujudaico.inwebonline.net/resultado.aspx?ns=216000&tabela=129103065024031067032155242180233148050099062198&valor=24&fieldname=064002091052031165176153127026228248223081047252&termo=076186138031138014017176117109211167222251062211&tituloTag=061132214032221073036125069179001099142008211250&IDFiltoTag=226&lang=BR&IPR=145&todosRegistos=true&modo=album&index=5&c=PesquisaGeral&pageIndex=1&order=2501&by=asc#div_objecto_selecionado



Relógio de Bolso de Moisés Dzialowski

    Durante todo o período em que esteve preso em campos de concentração, Moisés Dzialowski escondeu o relógio em seu sapato. 
  • Como o homem conseguiu esconder o relógio em meio aos horrores dos campos de concentração?
  • Qual o valor afetivo desse objeto a ponto de seu dono correr o risco de ser reprimido caso fosse descoberto?  


As irmãs Edith e Eleonore


    Esse cachorrinho de pelúcia cruzou o Atlântico e ofereceu conforto a Edith e Eleonore Posva durante a imigração das meninas ao Brasil, na década de 1940. 

  As irmãs Edith e Eleonore Posva durante a viagem para o Brasil

    A família Hahn (Betty, Wilhelm e as duas filhas Edith e Eleonor) foi vítima da perseguição nazista, a polícia entrou à força em sua casa. Marchas do Partido ocorriam nas ruas. 
Devido às condições impostas aos judeus no período, Edith nasceu prematura sem unhas nem cabelo. Wilhelm, foi preso e Betty pagou para que ele fosse libertado. Na Kristallnacht, novembro de 1938, os nazistas quebraram as janelas acima das camas das crianças. 

Vestido de Edith Ida  e Eleonore Posva

    Sara Wild, mãe de Betty, foi deportada para Riga. Seu filho Heinrich viu os nazistas levarem sua mãe embora, mas não pôde fazer nada. Ela levou consigo apenas uma pequena mala e passou três dias e três noites no trem até chegar ao seu destino. Ali, foi baleada na floresta de Rumbula. 
    A família Hahn deixou a Alemanha em 1940, Edith tinha 3 anos e Eleonore, 4 anos com destino ao Brasil sem falar português e sem recursos.            https://www.jl-gunzenhausen.de/de/wild.html



    Além das memórias do Holocausto, um painel favorece a reflexão com a atualidade ao apresentar manchetes relacionadas à violência a que minorias são vítimas no Brasil, reafirmando o compromisso do Museu com a preservação da memória e do compromisso contínuo com a justiça e a humanidade.


Para conhecer o Museu Judaico de Paris, clique: https://aquisotemhistoria.blogspot.com/2023/10/a-musica-nos-campos-de-concentracao.html


domingo, 18 de fevereiro de 2024

Uma cápsula do tempo: o quarto de Hubert Rochereau

Em Bélâbre, a cerca de 330 km de Paris, uma magnífica casa burguesa guarda um tesouro. Alphonse e Marie Rochereau mantiveram o quarto de seu único filho, Hubert, que morreu em combate em abril de 1918, aos 21 anos, intacto. O quarto da infância tornou-se um tributo ao amor dos pais por seu filho. 


O quarto de Hubert Rochereau, segundo-tenente do 15º regimento de dragões é pequeno, escuro e cheio de objetos e permaneceu como estava no final da Grande Guerra. Cada um dos objetos espalhados conta um pouco da história desse jovem. 


Uma vida registrada nos objetos de um quarto

Casacos militares, hoje roídos por traças, as armas e equipamentos pendurados nas paredes, a cama com a colcha de croché sobre a qual foi colocado seu capacete de Saint-Cyrien, uma lanterna, um pote de cigarros, um cachimbo ainda cheio de tabaco... 

Os livros, cadernos e anotações testemunham  um estudante empenhado do Colégio militar Saint-Cyr e apreciador de literatura francesa. 
Fotografias o mostram em momentos felizes e relaxados antes do conflito, tudo no exato local onde Hubert os deixou. 
Um capacete prussiano, duas pistolas, uma faca, um cantil alemão de metal crivado de balas - souvenirs de combate?; baionetas, bandeiras francesas, esporas, uma máscara de esgrima e um tubo de pasta de dentes que era usada nas trincheiras. 
Quinhentos e cinquenta objetos são testemunhas que ali viveu e cresceu Hubert Rochereau. 

O relógio na mesinha de cabeceira parou às 5h18.


Com o tempo, o papel de parede descascou e desbotou, mas ainda confere ao quarto certa elegância das casas abastadas do início do século XX. 





Desde o dia em que partiu para a guerra depois de uma licença, em janeiro de 1918, nada mudou. Um sentimento de responsabilidade e talvez de orgulho certamente assombrava esta família militar, cujo antepassado serviu como intendente de Napoleão. 

A correspondência


https://www.lepopulaire.fr/limoges-87000/actualites/la-chambre-du-poilu-a-belabre-dans-l-indre-un-lieu-fige-pour-l-amour-du-fils-adore_14330944/

Entre dois gabinetes, sob um sabre de cavalaria do século XIX, dois baús levam o nome de Hubert Rochereau. Eles contêm riquezas. O casal Rochereau depositou ali, para a posteridade, os cadernos escolares que Alphonse usou para transcrever pacientemente, a infinidade de correspondências que a família trocou durante os anos em que Hubert esteve no front. Folhas de louro foram colocadas entre esses cadernos para que serem preservados da melhor forma possível na escuridão do baú fechado.

Os cadernos em que Alphonse Rochereau, o pai, transcreveu a correspondência com o filho.

Um dos cadernos de correspondência

“Não me diga que eu estraguei você, meu querido filho. Eu era rigoroso. Mas seu treinamento foi muito fácil, meu querido”, relata o pai em um dos cadernos com a correspondência entre eles. 

Os álbuns de fotografias permaneceram guardados em um dos armários. Nessas páginas, sucedem-se as memórias de uma criança mimada rodeada pela família, mas também as, mais atormentadas, de um soldado mobilizado com apenas 19 anos. 

Na véspera de sua morte, Hubert escreveu aos pais: “Não nos falta nada, tudo está indo muito bem, não se preocupem, queridos pais. Então, vocês sabem, tenho confiança ilimitada em Deus”. 

Os pais do jovem oficial nunca se recuperaram. Em um de seus cadernos, o pai de Hubert escreveu: “Continuamos a viver para ele, como no passado, não tendo mais nenhum outro propósito na Terra. Sua memória nos abriga, vivemos em sua sombra que se estende sobre nós como proteção do alto ."

A morte de Hubert

O segundo-tenente morreu em uma ambulância de campanha inglesa após ser ferido no Monte Kemmel, no vilarejo de Loker, na Bélgica. Hubert Rochereau foi enterrado em um cemitério inglês antes de seu corpo ser repatriado para Bélâbre em 1922.
Um frasco colocado sobre a mesa lembra o triste fim do jovem Hubert; numa etiqueta, algumas palavras escritas a tinta: “da terra da Flandres onde caiu o nosso querido filho e que preservou os seus restos mortais durante quatro anos”.


A placa de metal acima é a testemunha da morte de Hubert. Seu nome está gravado em um dos lados; no outro, Alphonse Rochereau escreveu algumas linhas. "Placa gravada às pressas com cinzel pelo armeiro-chefe do regimento e pregada no caixão original feito durante a Batalha do Monte Kemmel..."; devido à emoção, o resto do texto é perfeito; “A pobre criança levada morrendo no campo de batalha, um estilhaço na região temporal esquerda…”

As condecorações e o retrato



Um retrato completo de Hubert vigia a sala e seus tesouros como uma sentinela. O jovem, em seu uniforme militar, está com chicote embaixo do braço, luvas de pele de carneiro nas mãos e um casaco repleto de condecorações. No entanto, as medalhas militares que Hubert usa foram-lhe conferidas postumamente, ou seja, quando a foto foi tirada e o quadro feito, Hubert não poderia ter as medalhas. O casal Rochereau retocou a foto para ter uma imagem do filho como ele seria se tivesse retornado.

Condecorações de Hubert Rochereau, todas obtidas postumamente, organizadas em sua cama
https://www.lepopulaire.fr/limoges-87000/actualites/la-chambre-du-poilu-a-belabre-dans-l-indre-un-lieu-fige-pour-l-amour-du-fils-adore_14330944/

Museu para o quarto de Hubert 


Poucos meses antes da morte do casal, em dezembro de 1936 e janeiro de 1937 respectivamente, eles doaram a casa, mas deixaram instruções expressas, registradas no tabelião, para aqueles que ocupassem o local: se comprometer a não tocar em nada no quarto de Hubert durante quinhentos anos. 
Ao século XX, os quatro proprietários do imóvel cumpriram as cláusulas e mantiveram o quarto inviolado. 
Hoje, 105 anos depois, os atuais proprietários do imóvel venderam os objetos do quarto a um casal de Paris, que em parceria com a prefeitura da cidade, idealizam a construção de um museu em outro lugar. O quarto foi digitalizado e até o papel de parede será restaurado. Logo o público poderá testemunhar o amor de Alphonse e Marie por seu filho. 

Fontes da pesquisa: