Aqui só tem História

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quinta-feira, 13 de junho de 2024

Museu Judaíco em São Paulo

O prédio

    Projetado pelo arquiteto Samuel Roder, o Museu Judaico de São Paulo (MUJ) ocupa o prédio do templo Beth El, no bairro Bela Vista.

Na fachada, lê-se: “Que esta seja a casa de oração para todos os povos

             
    Entre 1932 a 2010, o espaço foi a sinagoga da comunidade Beth El, frequentadas por judeus imigrantes, vindos do Leste Europeu, sobretudo no período Entreguerras (1919-1945). Ali, gerações celebraram seus ritos sagrados. 

    O Museu abriga o maior acervo judaico da América Latina e possibilita ao visitante conhecer a diversidade de expressões, histórias, tradições e memórias judaicas e a coexistência pacífica entre diversos grupos sociais.  


    Ali, a memória é um fenômeno vivo, fonte de resistência e em permanente transformação.


No teto, fotografias individuais ou de famílias ajudam o visitante a imaginar quantas histórias e memórias fazem parte da trajetória dessas pessoas ao longo dos séculos XX e XXI. 



Fontes históricas e a preservação da memória

Os mais de 4000 objetos possibilitam ao visitante analisar fontes históricas, como um detetive do passado, um historiador que interroga os objetos em exposição, são fontes: 
  • materiais, como brinquedos, roupas, adornos (joias, relógios). 
  • visuais: fotografias, mapas, gravuras, pinturas. 
  • textuais: livros e documentos. 
  • sonoros e visuais: filmes e gravações. 

Fontes históricas rituais

O calendário


    O calendário judaico é lunissolar, ou seja, considera tanto os ciclos solares quanto lunares. A contagem do ano é feita a partir da crença da criação do primeiro homem e da primeira mulher por Deus.
Para os judeus, o ano 2024 corresponde ao ano 5784 ou 5785 depois que Deus criou o mundo. 

Torá - É a bíblia hebraica. É escrita à mão com tinta especial e pergaminho especiais. Ali estão as regras e crenças do judaísmo. 

Menorá em bronze - objeto ritual religioso


    Candelabro de sete braços (83,5 cm. de altura): O acervo conta com menorot (plural) de diferentes épocas. 

Mesa do Sêder (Ordem)


    É o jantar festivo em que o povo judeu relembra – por meio da alimentação, da leitura e de canções – as fases de sua libertação do Egito. 


Relato de Esther (Meguilat Ester)

    Feito em Veneza, Itália, século XVIII. Escrito em hebraico e ilustrado com desenhos e aquarela;



    O Pergaminho narra a história da rainha da Pérsia, Esther e da tentativa de extermínio do povo judeu que vivia nesse território. 

    A Meguilá é o livro lido durante a festa de Purim e no seu pergaminho está descrita história da Rainha Esther na Pérsia, a história da festa judaica de Purim que conta tentativa de extermínio do povo judeu na Pérsia antiga durante este reinado. com suporte de marfim torneada com anéis e pergaminho com manuscritos. 


    Além da leitura dessa história, no Purim se celebra a vitória do povo judeu em seguir sua fé, todos ficam alegres, fazem brincadeiras, enviam comidas à família e amigos e também aos necessitados. 

Escultura: Dois velhos indo para a Sinagoga (1939). 

    homem leva uma bengala e um talit - um acessório religioso em forma de um xale feito de seda, lã ou linho, com as tsitsiot (franjas). Ele é usado como uma cobertura na hora das preces, principalmente na oração de Shacharit (feitas pela manhã). As franjas funcionam como lembrete dos 613 mandamentos do judaísmo. Já a mulher carrega um livro com uma estrela de David na mão esquerda. 

Rosh Hashaná (Cabeça do Ano)

    O ano novo judaico, Rosh Hashaná, é comemorado durante dois dias e celebra a criação do primeiro homem e da primeira mulher. 

    No Museu há inúmeros cartões de felicitações para o novo de diferentes épocas do século XX. 


  • O que costuma-se desejar para a família e os amigos no Ano Novo? 


Boneca de uma jovem mulher rezando na mesa de Shabat (dia sagrado de descanso)

    Na mesa, há um livro de rezas e uma chalá, o pão especial que se come no shabat. Ela pertenceu a Marcus Fisher que, antes da Primeira Guerra Mundial, levou-a consigo quando imigrou para Buenos Aires e, posteriormente, quando veio para o Brasil. 

Fotografias e vestimentas

Vestimentas de casamento, início do século XX


    Foto de Rosinha Brauer Cupersmidt no dia de seu casamento na sinagoga Beth El (que hoje é o Museu) em 1952. O vestido usado por ela encontra-se no acervo do museu. 


Fotografias da exposição de Marcelo Brodsky (fotógrafo argentino)

Família de Marcelo Brodsky, sua avó está destacada no centro da imagem, 1911.

  • O que teria levado essa família a imigrar, vindos da Rússia, para um país tão distante e culturalmente diferente como a Argentina? 
  • Quais esperanças traziam consigo? 
  • O que é possível perceber sobre as relações familiares ao analisar as fotografias? 

    Família de Marcelo Brodsky, nessa fotografia, de 1911, sua avó Rosa 1911 está ao lado do irmão. 


Lembrar e não esquecer

    O dia 6 de maio é Yom HaShoá, o "Dia da Lembrança do Holocausto".  A exposição Lembrar e não esquecer descreve esse período terrível da história do povo judeu por meio de diversas fontes históricas: 


Os objetos em exposição revelam informações sobre a vida daqueles que os possuíam. 




    Segundo o MUJ, na Alemanha, a partir da chegada do partido nazista ao poder, a Estrela de Davi amarela deveria, obrigatoriamente, ser usada pelos judeus em público para diferenciá-los - e humilhá-los, em relação ao restante da população.



Passaporte alemão de Elly SARA Bukofzer. Para identificar as mulheres judias, Sara foi incluído ao nome. 

  • Em que cidade o documento foi expedido? Quando? O que ela representava para o Estado Nazista? 
  • Por que as mulheres judias tinham seus nomes alterados? 
  • Como se sentiam?

Para explorar outros passaportes que fazem parte do acervo do museu, acesse:https://museujudaico.inwebonline.net/resultado.aspx?ns=216000&pesquisa=174148173102099029178169182128096096222089225206&tipopesquisa=045023100197142086096084061115242135035161033191&designacaopesquisa=028192150087144041122088030061151096016187041227&refazPesquisa=sim&modo=album&lang=PO&IPR=145&order=2501&by=asc&pageIndex=1#div_objecto_selecionado


                            Diário de Lori Dublon: registro da perseguição nazista


Esses objetos levam o visitante a refletir sobre como era a vida daquelas pessoas que os utilizaram: 
  • O que Lori escreveu em seu diário?
  • Quem era e o que sonhava a menina dona da boneca? 
  • Como chamava essa sua filhinha? 



Conheça a história de Ruth Sprung: https://www.facebook.com/reel/7322016994563115

Explore outros brinquedos do acervo do Museu, acesse: https://museujudaico.inwebonline.net/resultado.aspx?ns=216000&tabela=129103065024031067032155242180233148050099062198&valor=24&fieldname=064002091052031165176153127026228248223081047252&termo=076186138031138014017176117109211167222251062211&tituloTag=061132214032221073036125069179001099142008211250&IDFiltoTag=226&lang=BR&IPR=145&todosRegistos=true&modo=album&index=5&c=PesquisaGeral&pageIndex=1&order=2501&by=asc#div_objecto_selecionado



Relógio de Bolso de Moisés Dzialowski

    Durante todo o período em que esteve preso em campos de concentração, Moisés Dzialowski escondeu o relógio em seu sapato. 
  • Como o homem conseguiu esconder o relógio em meio aos horrores dos campos de concentração?
  • Qual o valor afetivo desse objeto a ponto de seu dono correr o risco de ser reprimido caso fosse descoberto?  


As irmãs Edith e Eleonore


    Esse cachorrinho de pelúcia cruzou o Atlântico e ofereceu conforto a Edith e Eleonore Posva durante a imigração das meninas ao Brasil, na década de 1940. 

  As irmãs Edith e Eleonore Posva durante a viagem para o Brasil

    A família Hahn (Betty, Wilhelm e as duas filhas Edith e Eleonor) foi vítima da perseguição nazista, a polícia entrou à força em sua casa. Marchas do Partido ocorriam nas ruas. 
Devido às condições impostas aos judeus no período, Edith nasceu prematura sem unhas nem cabelo. Wilhelm, foi preso e Betty pagou para que ele fosse libertado. Na Kristallnacht, novembro de 1938, os nazistas quebraram as janelas acima das camas das crianças. 

Vestido de Edith Ida  e Eleonore Posva

    Sara Wild, mãe de Betty, foi deportada para Riga. Seu filho Heinrich viu os nazistas levarem sua mãe embora, mas não pôde fazer nada. Ela levou consigo apenas uma pequena mala e passou três dias e três noites no trem até chegar ao seu destino. Ali, foi baleada na floresta de Rumbula. 
    A família Hahn deixou a Alemanha em 1940, Edith tinha 3 anos e Eleonore, 4 anos com destino ao Brasil sem falar português e sem recursos.            https://www.jl-gunzenhausen.de/de/wild.html



    Além das memórias do Holocausto, um painel favorece a reflexão com a atualidade ao apresentar manchetes relacionadas à violência a que minorias são vítimas no Brasil, reafirmando o compromisso do Museu com a preservação da memória e do compromisso contínuo com a justiça e a humanidade.


Para conhecer o Museu Judaico de Paris, clique: https://aquisotemhistoria.blogspot.com/2023/10/a-musica-nos-campos-de-concentracao.html


domingo, 18 de fevereiro de 2024

Uma cápsula do tempo: o quarto de Hubert Rochereau

Em Bélâbre, a cerca de 330 km de Paris, uma magnífica casa burguesa guarda um tesouro. Alphonse e Marie Rochereau mantiveram o quarto de seu único filho, Hubert, que morreu em combate em abril de 1918, aos 21 anos, intacto. O quarto da infância tornou-se um tributo ao amor dos pais por seu filho. 


O quarto de Hubert Rochereau, segundo-tenente do 15º regimento de dragões é pequeno, escuro e cheio de objetos e permaneceu como estava no final da Grande Guerra. Cada um dos objetos espalhados conta um pouco da história desse jovem. 


Uma vida registrada nos objetos de um quarto

Casacos militares, hoje roídos por traças, as armas e equipamentos pendurados nas paredes, a cama com a colcha de croché sobre a qual foi colocado seu capacete de Saint-Cyrien, uma lanterna, um pote de cigarros, um cachimbo ainda cheio de tabaco... 

Os livros, cadernos e anotações testemunham  um estudante empenhado do Colégio militar Saint-Cyr e apreciador de literatura francesa. 
Fotografias o mostram em momentos felizes e relaxados antes do conflito, tudo no exato local onde Hubert os deixou. 
Um capacete prussiano, duas pistolas, uma faca, um cantil alemão de metal crivado de balas - souvenirs de combate?; baionetas, bandeiras francesas, esporas, uma máscara de esgrima e um tubo de pasta de dentes que era usada nas trincheiras. 
Quinhentos e cinquenta objetos são testemunhas que ali viveu e cresceu Hubert Rochereau. 

O relógio na mesinha de cabeceira parou às 5h18.


Com o tempo, o papel de parede descascou e desbotou, mas ainda confere ao quarto certa elegância das casas abastadas do início do século XX. 





Desde o dia em que partiu para a guerra depois de uma licença, em janeiro de 1918, nada mudou. Um sentimento de responsabilidade e talvez de orgulho certamente assombrava esta família militar, cujo antepassado serviu como intendente de Napoleão. 

A correspondência


https://www.lepopulaire.fr/limoges-87000/actualites/la-chambre-du-poilu-a-belabre-dans-l-indre-un-lieu-fige-pour-l-amour-du-fils-adore_14330944/

Entre dois gabinetes, sob um sabre de cavalaria do século XIX, dois baús levam o nome de Hubert Rochereau. Eles contêm riquezas. O casal Rochereau depositou ali, para a posteridade, os cadernos escolares que Alphonse usou para transcrever pacientemente, a infinidade de correspondências que a família trocou durante os anos em que Hubert esteve no front. Folhas de louro foram colocadas entre esses cadernos para que serem preservados da melhor forma possível na escuridão do baú fechado.

Os cadernos em que Alphonse Rochereau, o pai, transcreveu a correspondência com o filho.

Um dos cadernos de correspondência

“Não me diga que eu estraguei você, meu querido filho. Eu era rigoroso. Mas seu treinamento foi muito fácil, meu querido”, relata o pai em um dos cadernos com a correspondência entre eles. 

Os álbuns de fotografias permaneceram guardados em um dos armários. Nessas páginas, sucedem-se as memórias de uma criança mimada rodeada pela família, mas também as, mais atormentadas, de um soldado mobilizado com apenas 19 anos. 

Na véspera de sua morte, Hubert escreveu aos pais: “Não nos falta nada, tudo está indo muito bem, não se preocupem, queridos pais. Então, vocês sabem, tenho confiança ilimitada em Deus”. 

Os pais do jovem oficial nunca se recuperaram. Em um de seus cadernos, o pai de Hubert escreveu: “Continuamos a viver para ele, como no passado, não tendo mais nenhum outro propósito na Terra. Sua memória nos abriga, vivemos em sua sombra que se estende sobre nós como proteção do alto ."

A morte de Hubert

O segundo-tenente morreu em uma ambulância de campanha inglesa após ser ferido no Monte Kemmel, no vilarejo de Loker, na Bélgica. Hubert Rochereau foi enterrado em um cemitério inglês antes de seu corpo ser repatriado para Bélâbre em 1922.
Um frasco colocado sobre a mesa lembra o triste fim do jovem Hubert; numa etiqueta, algumas palavras escritas a tinta: “da terra da Flandres onde caiu o nosso querido filho e que preservou os seus restos mortais durante quatro anos”.


A placa de metal acima é a testemunha da morte de Hubert. Seu nome está gravado em um dos lados; no outro, Alphonse Rochereau escreveu algumas linhas. "Placa gravada às pressas com cinzel pelo armeiro-chefe do regimento e pregada no caixão original feito durante a Batalha do Monte Kemmel..."; devido à emoção, o resto do texto é perfeito; “A pobre criança levada morrendo no campo de batalha, um estilhaço na região temporal esquerda…”

As condecorações e o retrato



Um retrato completo de Hubert vigia a sala e seus tesouros como uma sentinela. O jovem, em seu uniforme militar, está com chicote embaixo do braço, luvas de pele de carneiro nas mãos e um casaco repleto de condecorações. No entanto, as medalhas militares que Hubert usa foram-lhe conferidas postumamente, ou seja, quando a foto foi tirada e o quadro feito, Hubert não poderia ter as medalhas. O casal Rochereau retocou a foto para ter uma imagem do filho como ele seria se tivesse retornado.

Condecorações de Hubert Rochereau, todas obtidas postumamente, organizadas em sua cama
https://www.lepopulaire.fr/limoges-87000/actualites/la-chambre-du-poilu-a-belabre-dans-l-indre-un-lieu-fige-pour-l-amour-du-fils-adore_14330944/

Museu para o quarto de Hubert 


Poucos meses antes da morte do casal, em dezembro de 1936 e janeiro de 1937 respectivamente, eles doaram a casa, mas deixaram instruções expressas, registradas no tabelião, para aqueles que ocupassem o local: se comprometer a não tocar em nada no quarto de Hubert durante quinhentos anos. 
Ao século XX, os quatro proprietários do imóvel cumpriram as cláusulas e mantiveram o quarto inviolado. 
Hoje, 105 anos depois, os atuais proprietários do imóvel venderam os objetos do quarto a um casal de Paris, que em parceria com a prefeitura da cidade, idealizam a construção de um museu em outro lugar. O quarto foi digitalizado e até o papel de parede será restaurado. Logo o público poderá testemunhar o amor de Alphonse e Marie por seu filho. 

Fontes da pesquisa: 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O Revanchismo francês e a I Guerra Mundial

 A derrota na Guerra Franco-Prussiana


Pain de siège»  'O Pão do Cerco'

O Pão do Cerco faz parte da coleção de objetos do Museu da Grande Guerra de Meaux e lembra 1870, quando Paris foi sitiada pelo exército prussiano. 

Musée de la Grande Guerre à Meaux

Entre 19 de julho de 1870 e 10 de maio de 1871, França e Prússia se envolveram em uma guerra que envolveu tensões ligadas à geopolítica da Península Ibérica e à sucessão ao trono espanhol.
O exército prussiano, altamente treinado e melhor preparado que o francês, rapidamente avançou em direção a Paris e cercou a capital francesa. A inferioridade do exército francês em relação ao prussiano – estrategicamente, mas bem treinado e melhor equipado – resultou na ocupação de Paris após um cerco severo e na anexação das áreas de fronteira da Alsácia e da Lorena.

Durante o cerco, para não morrerem de fome, os parisienses comeram gatos, ratos e animais do Jardin des Plantes. Eles também comeram pães feitos de serragem, de cascas de árvores ou como o pão da imagem, de composição desconhecida que foi preservado como relíquia, algo tão sagrado a ponto de se tornar objeto de museu. 

A capitulação francesa deu origem a um forte ressentimento popular que foi expresso na fórmula "Esquecer... nunca!"  inscrita nas medalhas comemorativas deste conflito.

Musée de la Grande Guerre à Meaux

A derrota e as perdas territoriais impostas pelo tratado de paz - a Alsácia e a Lorena  para uma nação que estava se formando fizeram com que a posição de potência da França fosse questionada na Europa e despertaram nos franceses um profundo sentimento de revanche. 



Aliança entre a França e a Rússia para a destruição de um inimigo em comum, os alemães
- Musée de la Grande Guerre à Meaux


A Alsácia e a Lorena são Francesas! 


Propaganda francesa mostrando a prisão da Alsácia- Musée de la Grande Guerre à Meaux

Boneca alemã, 1896 representando a Alsácia, as roupas da boneca usam as cores da bandeira alemã - Musée de la Grande Guerre à Meaux

Os cartões postais são abertamente nacionalistas ou anti-alemães. Nessas imagens, as mulheres da Alsácia-Lorena são representadas esperando e até rezando pela libertação da Alemanha. Símbolos franceses, incluindo bandeiras, flores vermelhas, brancas e azuis e o soldado francês são encontrados em todos as representações. 

Representação da Alsácia e da Lorena- Musée de la Grande Guerre à Meaux

Selo comemorativo da Aliança Franco-Russa, 1895



Dormitório de um soldado - Musée de la Grande Guerre à Meaux

O cartão postal a seguir representa um soldado alemão rindo, ele segura um canhão em uma mão e as ruínas em chamas de uma igreja na outra. O objetivo é provar a barbárie e selvageria de um inimigo desprezível que nada respeita, nem mesmo o sagrado - a catedral.



Entre 1914 e 1918, as imagens representativas da “crueldade do inimigo” sob diversas formas (em livros, jornais, revistas ilustradas, cartazes, postais, no teatro, no cinema etc.) foram muito populares, permite travar a guerra numa outra frente que não a do campo de batalha: a nível psicológico. A maioria destas representações retoma o modelo dominante que foi forjado durante o conflito franco-prussiano de 1870.
O ressurgimento destas imagens no início da Grande Guerra não é, portanto, surpreendente, especialmente porque, durante as ofensivas de 1914, as atrocidades foram cometidas pelos alemães em muitos territórios, como na Bélgica, no norte e no leste de França, mas também na Rússia e Sérvia: violações de mulheres, massacres de reféns, pilhagens e destruição de aldeias.


Batalhões escolares - as crianças e a guerra


Desde 1870 os jovens e as crianças se familiarizaram com a perspectiva da vingança. A escola tornou-se espaço para a propaganda patriótica. 
A ideia de guerra heróica foi construída através da literatura. Testemunhos escritos comoventes e autênticos surgem em diversas formas literárias: cadernos escolares, postais,  diários de trincheira, cartazes, manuais escolares, romances, álbuns, periódicos, etc.

Batalhões escolares  - Musée de la Grande Guerre à Meaux

Criados em 1882, os batalhões escolares alinhavam alunos nas escolas estaduais para exercícios de ginástica e treinos com armas. Eles foram concebidos para garantir um movimento patriótico dentro das escolas que eventualmente seria capaz de substituir um exército permanente. A experiência foi abandonada sete anos após a sua criação. 

Uniforme de pequenos Soldados - Musée de la Grande Guerre à Meaux


As crianças se tornaram um instrumento essencial de propaganda tanto em França como na Alemanha. As fronteiras entre o mundo adulto e o mundo da infância desapareceram, a militarização da infância encontra-se na apropriação total dos fatos da guerra e na identificação completa com a luta nacional. Às vezes com um desejo muito acentuado de participar no combate, de lutar contra o inimigo. A integração das atrocidades do conflito no mundo da infância assinala os limiares de investimento na luta ultrapassados ​​durante a guerra.

Brinquedos, livros e manuais escolares incentivando o militarismo - Musée de la Grande Guerre à Meaux

Os professores mencionam as batalhas e exaltam a defesa do país, enquanto os livros são ferramentas ideológicas úteis à causa nacional. As crianças em idade escolar também foram mobilizadas ao seu nível, encarregadas de vender títulos de guerra. 


Exemplos de cartões postais da época, com crianças incentivando os soldados. Os pequenos patriotas, apesar das difíceis condições de carestia ocasionadas pela guerra, não podiam reclamar. Pelo contrário deviam ser demonstrar coragem diante do difícil cotidiano repleto de privações e separações já que seus pais e irmãos mais velhos estavam no front. 

Nos cartões postais patrióticos, as crianças seguram orgulhosamente a bandeira e as armas nas mãos.


A representação de crianças através da propaganda. Postal produzido em 1915.


Os alimentos tornam-se escassos e, portanto, muito caros. O salário, ou seja, o salário dos soldados, já não é suficiente para alimentar as suas famílias. Muitas crianças tiveram 
que trabalhar para sobreviver, novas responsabilidades surgem: os mais velhos cuidam dos  mais novos, outros esperaram na fila da comida, trabalham nos na agricultura familiar ou na indústria bélica.

Detalhe do postal A Grande Guerra 1914-15 n°498, “Na Alsácia, escola construída num curral por um mestre soldado”

O fim da luta, entre alívio e tristeza


Cartões postais de 1918 celebram a união da França, Alsácia e Lorena. Rue des Archives/©Rue des Archives/PVDE


Mulheres em trajes alsacianos recebem as tropas francesas que entraram em Estrasburgo, 22 de novembro de 1918


Quando os combates finalmente cessaram, em 1918, as crianças ficaram aliviadas, apesar de muitas terem perdido os pais, os irmãos, os tios ou os avós. A França tinha cerca de 1 milhão de órfãos. Eles foram adotados pelo Estado, que se comprometeu a ajudá-los e a dar-lhes acesso à educação. É toda uma geração que foi marcada pela guerra e que terá agora de reconstruir o país.

Calcula-se que seis a oito milhões de crianças ficaram órfãs após a Primeira Guerra Mundial.

Pintura monumental La Pensée aux Absents (“Pensamento aos ausentes”)  de André Devambez, com mais de 5 metros de largura, representa o terror das trincheiras, a solidão das noites escuras, as milhões de mortes e a ausência. 


No final de 1918, a França tinha mais de 630 mil viúvas. Suas silhuetas negras simbolizam o trauma vivido e o luto da nação. Segundo o costume, as viúvas choram durante dois anos: um ano de luto profundo, nove meses de luto e três meses de meio luto. Alguns irão usá-lo além deste período regulatório e exibi-lo durante toda a vida.

Privadas do chefe da família, muitas viúvas viveram em situação de precariedade. O Estado tomou medidas e a lei de 31 de março de 1919 lhes concedeu o direito a uma pensão. Mas a morte do marido deveria ser reconhecida oficialmente, o que poderia levar algum tempo.

Em 1921, por falta de homens ou por lealdade ao noivo perdido, 13% das jovens, viúvas brancas, permaneciam solteiras.

Coleção: Historial da Grande Guerra de Péronne - Tríptico “Pensamento aos ausentes”, Devambez André

Referências